Tenho visto imagens de artistas, políticos, de gente famosa, ex-isso e ex-aquilo, sendo vacinados, todos mais ou menos velhinhos, e de anônimos dos grupos prioritários. Todos com cara boa e sorridentes. Uns com expressão de alívio e mãos coladas, outros fazendo o gesto de positivo, com o dedão pra cima, como que querendo dizer alguma coisa do tipo “siga o caminho do tigre”. Cheguei a ficar com uma certa inveja.
Volta e meia acho bom ter direito a atendimento preferencial, inclusive nos balcões dos açougues. Aprendi ainda menino a dar lugar para os mais idosos e para as mulheres. Nem sei se isso está sendo ensinado às crianças pequenas de hoje em dia. Chego a pensar que nesse mundo do salve-se quem puder, do prepare-se para conquistar, a educação de filhos deve estar sendo repaginada, como se diz. Mais do que bons modos e solidariedade, deve ter muita gente ensinando técnicas para alcançar objetivos, macetes para fazer sucesso, práticas para subir na vida rapidinho e coisas do gênero.
Pois após meses mantendo controle dos meus movimentos, a filha caçula e o marido trataram de fazer o agendamento e me levar para vacinar. Chegamos com antecedência de poucos minutos do horário marcado, entramos numa fila bem pequena e saímos poucos minutos depois. O posto de vacinação estava funcionando numa escola pública municipal muito bem cuidada.
Fui recebido com atenção, como se fosse alguém que estava sendo esperado, e saí agradecendo a cada um da equipe por ter sido muito bem atendido. Quase dei um beijinho na enfermeira simpática que furou meu braço esquerdo e nas moças que confirmaram meu nome no sistema e me deram um cartão indicando a marca da vacina e data da segunda dose. Dei o meu melhor sorriso para a mocinha gentil que recebia os vacinantes no portão e indicava cadeiras para sentar.
Não senti nada, absolutamente nada. Nem dor, nem a agulha entrando. E olha que eu tenho boa experiência de tomar vacina e injeção e, pior de tudo, de tirar sangue pra exames. Bem que eu já tinha percebido que ninguém que vi sendo vacinado fazia cara de dor ou de arrependimento ao ser furado.
Com Carol foi ainda melhor: parei o carro ao lado da tenda armada numa rua larga e tranquila de Bento Ferreira para ela descer e fui estacionar a uns 30 metros adiante, ao lado de onde sairia, já vacinada. Pois ela nem precisou sentar para esperar a vez. Deu gosto ver a sua carinha radiante, de vitoriosa, vindo com uma mão apertando o algodão no outro braço. Ela me disse que também não sentiu nada. Diana registrou o evento e jogou na rede, como Nélio já tinha feito comigo. Parentes e amigos adoraram saber.
Digo tudo isso para atestar que tudo funcionou muito bem, proporcionando uma gostosa sensação de segurança e dando impressão de que estamos num país civilizado. Resta ver como o pessoal mais novo vai se apresentar pra vacinar.
*Este texto não traduz, necessariamente, a opinião de A Gazeta