Na crônica passada falei de saudades e recebi solidariedade de pessoas amigas que também andam sentindo emoções similares. Ameaças presidenciais, tanque soltando fumaça, cantor sertanejo convocando paralisação, figura nefasta ameaçando opositores com armas, militares falando grosso, compra de votos em favor do voto impresso: é o que se vê.
Faz pensar que a disposição de Ciro Nogueira para agir como articulador-mor do Palácio deve durar bem pouco. Ele deve ter percebido que o buraco é bem mais embaixo do que pensava. Dificilmente será ouvido pelo presidente desvairado e, menos ainda, conseguirá convencer alguém sobre as boas intenções do chefe.
A estratégia presidencial de atacar e comprar briga está se mostrando racional, determinada e sem limites. Ele sai atirando contra quem lhe parece mais oportuno e interessante a cada momento, dentro de uma sequência lógica para despistar e desgastar. E dessa forma vai, com algum sucesso, botando o pé nas portas.
Nessa linha, o presidente anunciou insistentemente, com plena convicção e alarde, que vai pedir ao Senado que abra processo de impeachment dos dois ministros do STF que vêm mandando investigar e prender quem esteja ultrapassando limites constitucionais. Imagino que seja mais uma mensagem direta de intolerância aos que reagem com firmeza aos seus propósitos, fustigando a sua prepotência.
Com isso, ele coloca o presidente do Senado e do Congresso Nacional sob os holofotes: Rodrigo Pacheco é mineiro hábil, dotado de autoridade adquirida em articulações cuidadosas e de pretensões a continuar subindo na vida. Exposição pública e oportunidade para atuar como bombeiro em tempos nervosos, é tudo o que ele precisa para “bombar” sua candidatura à presidência da República.
Gilberto Kassab, que percebeu isso faz tempo, deve estar esfregando as mãos com a possibilidade de seu partido contar com um candidato competitivo. Afinal, Pacheco é conterrâneo de Tancredo Neves, um agregador de desgarrados e diferentes e, também, de Juscelino Kubitschek, presidente risonho que fez o Brasil pensar grande.
E Lula? Tendo a acreditar que, nesta altura da vida, recém-casado, ele não esteja com tanta disposição para enfrentar os encargos de uma presidência da República após uma incerta e arriscada vitória nas urnas. Ele deve ter ciência de que não será mais o mesmo depois de uma campanha que se anuncia superlativamente agressiva e desgastante, cheia de denúncias e infâmias de toda ordem, tendo que enfrentar a má vontade estimulada de grupos de militares e o desinteresse de evangélicos já plenamente satisfeitos.
Sou dos que acreditam que a melhor saída para Lula, a que lhe garantiria lugar de honra na história, seria atuar como principal articulador das forças de oposição, para viabilizar uma grande concertação de insatisfeitos, saudosos, sonhadores, desvalidos, conservadores e daqueles que estão chegando agora, em favor de um outro candidato. Tudo tem seu preço.