Durante a pandemia - sob total controle dos filhos - passei meses sem sair de casa. Caseiro inveterado, não foi difícil aceitar as restrições. Sempre inventei serviço pra aproveitar meu tempo, de preferência, algo que desafie minhas habilidades, incluindo consertos de brinquedos de netos e de coisas da casa.
Mexer com jardim também é algo que costumo fazer: podar o que estiver precisando, trocar terra de vaso, transferir planta para lugar sem sol direto, pendurar vasos e ajudar o jardineiro a cortar galhos de árvores. Melhor ainda é colher jabuticabas, pitangas e goiabas antes que os passarinhos comam umas e comecem a bicar outras.
Revolver e adubar a terra da horta, arrancar mato, reposicionar pés de tempero e regar com fé: são servicinhos facilitados pelo fato da nossa ser suspensa, como fazem na Paraíba, onde tratam por banguê.
Pois nesse tempo de recolhimento forçado resolvi dedicar atenção às belezas dos bambus. Nessa frente, me concentrei nas fibras, que descobri durante a recuperação de um infarto nos idos de 1975. Para fotografá-las como bem merecem, usei a lente macro do celular de Carol. Para bem captar suas características e belezas, tratei de caprichar no acabamento das superfícies resultantes dos cortes de topo, inclinados e longitudinais feitos num gomo escolhido.
Ao fotografar, me veio uma vontade mansa de escrever sobre as colheres que venho fazendo há quase 30 anos, usando só foices, goivas, faquinhas, lixas e cacos de vidro. Quanto mais escrevia, mais me lembrava dos fatos, dos lugares e das pessoas e, sobretudo, das boas emoções que foram se acumulando e formando histórias interligadas.
Sem qualquer pressa e achando bom, comecei a vasculhar gavetas, pastas e arquivos. Rever fotos, matérias de revistas, cartas e mensagens foi trazendo à luz muito do que estava armazenado na alma e no coração.
Como se as histórias não bastassem, achei por bem tentar entender o que estaria por trás dessa mania de fazer colheres de montão. Aos poucos foi possível sistematizar os processos de trabalho que adoto e mapear os conceitos e as expectativas que orientam as minhas escolhas.
Durante meses fui escrevendo sobre o que merecia atenção, ajustando a redação, pedindo opinião de gente corajosa, reescrevendo páginas inteiras, refazendo a ordem dos textos e escolhendo fotos para ilustrar as passagens, a ponto de chegar ao que poderia ser um livro com pé e cabeça.
Amainada a pandemia e depois de muitas idas e vindas, os originais finalmente foram enviados a uma gráfica, que prometeu entregar 1000 exemplares no começo de outubro. Agora só falta definir as festas de lançamento lá em Cachoeiro, no Rio de Janeiro e em Brasília. As de São Paulo e Vitória estão confirmadas pra os dias 15 e 25 de outubro.