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Crônica

Saudades do Caderno Dois

Suplementos impressos  nos informavam, de modo organizado, em notas e matérias, o que estava acontecendo nos cinemas, teatros, galerias, bares, livrarias, e mais onde fossem mostrados resultados de processos de criação individuais e coletivos

Publicado em 23 de Fevereiro de 2024 às 01:50

Públicado em 

23 fev 2024 às 01:50
Alvaro Abreu

Colunista

Alvaro Abreu

alvaro@bambuzau.com.br

Dei pra ficar saudosista. Não sei bem as razões, mas tenho me pegado lembrando de fatos corriqueiros da minha vida de morador de cidade pequena. É bem possível que alguém possa dizer que isso é coisa de gente velha.
Tenho lá meus motivos. A título de exemplo, conto que fui assistir a um concerto da Camerata Brasil, que tem à frente o grande pianista, arranjador e maestro Marcelo Bratke, na Casa da Música Sônia Cabral. Merecia estar lotado, mas havia muito lugar vazio. Só soube do evento poucas horas antes, por amiga querida.
Posso garantir, e até depor em juízo, se necessário for, que o mundo está ficando cada dia mais impróprio aos que foram criados afastados - por impossibilidade ou por gosto - das novidades que chegam e somem das telas num piscar de olho, para dar lugar a outras similares.
Confesso-me sem paciência com esse bombardeio de notícias e ofertas que me chegam pela internet, de “se amostragem” individual ou de pequenos grupos, de chamamentos trepidantes ou sedutores para participar de eventos, comprar produtos e serviços. Isso, sem falar naquele monte de lixo eletrônico que pessoas que pouco produzem de bom e bonito enviam para deus e o mundo. Sem querer tripudiar, acho que isso já virou modo de vida para gente desocupada.
Até acredito que esse afastamento progressivo das telas pode ter consequências ruins, mas estou, a cada dia, mais saudoso dos Cadernos Dois, B e afins dos jornais impressos. Eles nos informavam, de modo organizado, em notas e matérias, o que estava acontecendo nos cinemas, teatros, galerias, bares, livrarias, e mais onde fossem mostrados resultados de processos de criação individuais e coletivos.
Com eles, os jornais ofereciam aos leitores, em poucas páginas e colunas, um panorama sobre o que estava rolando na cidade e, mais importante, o que iria rolar, fundamental para nos programar para sentir emoções diante das belezas criadas, das ousadias próprias dos inquietos, das tiradas inteligentes, dos exercícios da liberdade. Passar um olho em cada página e ir aos detalhes do que interessasse era condição para se exercer o poder da escolha, inerente aos homens livres e de boa vontade.
Palácio Sônia Cabral, antiga sede da Assembleia Legislativa do Espírito Santo
Palácio Sônia Cabral Crédito: Edson Chagas/Arquivo AG
É bem verdade que existem sites, inclusive de jornais digitais, que oferecem informações relevantes, embora com dificuldade de serem encontradas. Até bem pouco tempo isso era feito com o jornal aberto, na mesa do café da manhã. Um hábito prazeroso que celulares e computadores jamais serão capazes de oferecer.
Dito tudo isso, com as melhores intenções, acho que esteja chegando a hora para que alguém se disponha a preencher essa lacuna, criando e fazendo funcionar um site que reúna informações e dicas das mais diversas fontes sobre iniciativas e eventos que estejam acontecendo e, mais relevante, que estejam por acontecer na cena cultural na cidade.

Alvaro Abreu

É engenheiro de produção, cronista e colhereiro. Neste espaço, sempre às sextas-feiras, crônicas sobre a cidade e a vida em família têm destaque, assim como um olhar sobre os acontecimentos do país

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