A notícia foi recebida com emoções variadas aqui em casa. A queda de um avião era um fato ruim por si só e atiçou a curiosidade de todos: Pequeno ou grande? Onde foi? Muitos passageiros?
Na pandemia, as perdas sofridas e as mortes anunciadas ganharam condição de rotina para praticamente todos nós. Basta estar ligado em alguma fonte de informação pra ficar sabendo das mortes e dos números atualizados.
A notícia do desastre se tornou mais relevante ao se saber que se tratava de uma cantora muito famosa. Para mim, motivo de espanto. Como assim? Nunca ouvi falar nessa pessoa, jamais escutei seu canto nem vi sua imagem na TV. Ela cantava qual tipo de música? Sertaneja? Então deve ser por isso. Não gosto muito desse estilo musical e sou do tempo dos Chitãozinhos e Sororós, dos Tonicos e Tinocos.
Pouco sei sobre essas duplas que existem de montão por esse Brasil afora e se apresentam em cidades do interior, viajando em ônibus enormes com os nomes escritos nas laterais. Uma solução prática e econômica para movimentar músicos, equipe de auxiliares, instrumentos e equipamentos de som e iluminação, com vantagens de viajar ensaiando e compondo com parceiros, jogando baralho e vendo a paisagem.
Digo isso porque já tive um ônibus desses bem grandes, transformado em motorhome, com cama para 12 pessoas, duas mesas, pia, geladeira e banheiro a bordo. Uma alternativa para levar a família grande, com conforto e segurança, por lugares fora das rotas tradicionais, livre das incertezas, do entra e sai em hotéis, de idas e vindas de aeroportos, de carros alugados.
Fiquei impressionado com a quantidade desses ônibus estacionados ao longo de um trecho da estrada por onde passaram os caminhões dos Bombeiros com os corpos das vítimas. Uma espécie de reverência silenciosa, um último adeus para uma pessoa muito querida, uma irmã do peito, uma referência de vida, uma guerreira das nossas.
Vi muita gente de pé nas calçadas, aglomerada em lugares estratégicos, em filas enormes para se despedir da ídola. A solidariedade e a tristeza estampadas no rosto de cada uma, algumas desoladas por completo. Cenas que me fizeram lembrar dos cortejos fúnebres de Tancredo e Ayrton Senna.
Também fiquei impressionado com as declarações de amigos, parceiros e artistas consagrados, jovens e gente mais velha, de todos os estilos, além de jornalistas, profissionais do ramo. Unanimidade geral e irrestrita. Todos confessando sua dor e, sobretudo, a admiração pela pessoa muito especial que foi para sempre. A sensação de vácuo, de perda de uma criatura muito valiosa, que fez o bem em grande escala.
Mais chocante foi saber que eu nunca tinha ouvido falar dessa mulher tão querida e admirada e me dar conta de um Brasil vivo e pulsante que desconheço por completo.