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Crônica

10 coisas que aprendi com Patti Smith, quatro carnavais depois

Me surpreendia, e ainda hoje, a força com que ela defende a revelação que um dia teve, de que ser artista é ver o que os outros não conseguem ver

Publicado em 09 de Março de 2025 às 04:00

Públicado em 

09 mar 2025 às 04:00
Ana Laura Nahas

Colunista

Ana Laura Nahas

ana.laura.nahas@gmail.com

Quatro anos depois das 10 coisas que aprendi com Patti Smith, voltei às pequenas notas do retrato sobre o encontro nada convencional da cantora, poeta e pintora de cabelão grisalho e olhos ligeiramente tristes com Robert Mapplethorpe. Um encontro nada convencional, mas potente e transformador. Nada convencional, mas de um equilíbrio perfeito entre fé e execução. Nada convencional, mas todo feito de afetos e lealdades. Nada convencional, mas comovente como a lua e o conhaque do poema.
Era novamente véspera de carnaval. Mas, desta vez, ao contrário daquela, podíamos andar livremente, dançar na multidão, soltar o ar a plenos pulmões, estar perto dos outros sem a assustadora sombra da pandemia e seus 20 milhões de mortos.
As saudades andavam mais ou menos sedimentadas, até as mais recentes. Os quês que eu havia aprendido com Patti Smith seguiam firmes e fortes.
Patti Smith no Festival Popload 2019
Patti Smith no Festival Popload 2019 Crédito: Fabrício Vianna/Popload/T4F/Divulgação
- Que, às vezes, tudo o que a gente precisa é olhar uma questão por outro ângulo.
- Que o desassossego poucas vezes vale a pena. É possível sobreviver e viver tendo como preocupação imediata apenas onde ir em seguida e o que fazer quando chegar lá.
- Que muitas vezes a contradição é o caminho mais claro para a verdade.
- Que, frequentemente, é preciso lembrar da alegria embutida no ato de dançar.
- Que, nos casos de amor verdadeiro, a regra é clara: a cada um [ou dois] cabe encontrar o jeito mais acertado de escrever a história, apesar do que os outros vivem, pensam ou dizem.
- Que há um bocado de beleza em ser leal ao mesmo tempo em que se é livre, apesar de toda a dificuldade de se ser leal e livre ao mesmo tempo.
- Que a música cura [disto eu já sabia], mesmo que para certos músicos não seja permitido curar a si mesmos.
- Que um novo cenário traz novos ruídos, exatamente como disse Arthur Rimbaud.
- Que, apesar daqueles que perdemos ao longo do caminho, nosso pacto com a vida deve ser perenemente renovado.
- Que o sujeito que contou seu segredo na página cento e nove tinha toda razão, e era um segredo bem simples: “Se você bater no muro, não pare”.
Patti Smith de algum modo lembrava uma amiga que há tempos eu não via, não tanto pela aparência, mas pelo modo suave, quase descompromissado, de ver a vida, apesar das agruras, tropeços e más notícias. Sua carinha que numa olhada ligeira a gente não sabe bem se menino ou menina; seus modos de hippie congelada no tempo, o cabelo a la Keith Richards com seu ímã de significados: uma figura dos pés à cabeça.
Ainda me surpreendiam as memórias de seu encontro com Robert Mapplethorpe, um artista visual de sexualidade ambígua e um pé no submundo, melhor amigo, namorado, amante, inspiração, cúmplice ora frágil ora protetor, desde o verão de 1967 até o fim da vida dele, em 1989. Me surpreendia, e ainda hoje, a força com que ela defende a revelação que um dia teve, de que ser artista é ver o que os outros não conseguem ver.

Ana Laura Nahas

É jornalista e escritora, com passagens pelos jornais A Gazeta e Folha de São Paulo e pelas revistas Bravo! e Vida Simples. Autora dos livros Todo Sentimento e Quase um Segundo, escreve aos domingos sobre assuntos ligados à diversidade, comunicação e cultura

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