A partida trágica e precoce de Marília Mendonça nos chocou por muitos motivos. Pela forma, pela imagem de horas antes nas redes sociais, pelo contexto, pelo tanto que ainda haveria, pelos detalhes de uma história inúmeras vezes recontada nos últimos dias.
E tem uma coisa que não me sai da cabeça, por distante que fosse minha ligação com a sua música: uma frase que a ouvi dizer, certa vez: "A minha pretensão não é ser famosa, e, sim, passar a minha verdade. Porque sempre me falaram que minha verdade era ruim e que eu teria que mascarar o que eu sou para não assustar o povo. Porque eu bebo, eu como, eu falo demais".
Marília Mendonça foi desrespeitada em uma, em duas, em muitas ocasiões, inclusive em alguns textos a respeito da sua morte. Por causa do peso. Pelos temas que cantava. Por ousar ser protagonista em um ambiente predominantemente masculino e machista. Por exaltar comportamentos que os conservadores donos da vida alheia julgam inadequados para uma mulher.
Por - palavras dela - comer, beber, falar demais.
“Me desrespeitam desde quando me entendo por Marília Mendonça, gorda, feia, mal vestida, mal cuidada”, ela escreveu, numa postagem de janeiro deste ano.
O desrespeito a que ela se referia se parece com o que centenas de outras mulheres sentem na pele, todos os dias. Mesmo não sendo oficialmente feminista e até recusando o rótulo, a artista mais ouvida do país nos últimos dois anos iluminou temas fundamentais para a caminhada das mulheres por igualdade.
Marília Mendonça cantou a relação de uma mulher com um homem, não o contrário, e a ordem dos fatores, neste caso, altera e muito o produto. Ela rompeu com o olhar unilateral e chegou nos cantões de um
Brasil acostumado a ver e ouvir os homens fazendo o que bem entendessem, mas as mulheres não.
A verdade de Marília Mendonça uniu o país, ultimamente tomado por opostos perigosos e radicalismos de extremo mau gosto. Não deixa de ser um grande feito, para além da tristeza de sua partida trágica e precoce.