Eu podia enumerar dezenas de textos incríveis que Luis Fernando Verissimo publicou ao longo dos anos, listar meus favoritos, prometer ler os outros, imitar a rotina regular e disciplinada adotada por ele para o ofício. Podia celebrar que ele escreveu fácil sobre temas difíceis, que esteve ao lado dos contestadores mesmo com a vida ganha.
Eu podia exaltar o amor dele pelo jazz, a elegância do seu traço, a aparente simplicidade de seus textos, a ironia fina que ele costurava às palavras. Podia dizer do alento de ver um sujeito declaradamente tímido escrever pelos cotovelos, bem-acabado e constante.
Eu podia enaltecê-lo por escolher a crônica como caminho, por elevar ao infinito e além o gênero que também tem sido o meu eleito, sob as bênçãos de Rubem Braga, José Carlos Oliveira, Carmélia Maria de Souza, Paulo Mendes Campos, João do Rio, Fernando Sabino, Manuel Bandeira, Clarice Lispector, Martha Medeiros e Carlos Drummond de Andrade.
Eu podia aplaudir em público seu jeito de explicar a política, a geografia e o cotidiano, com doses de picardia, mas sem perder a ternura. Podia ficar horas em torno daquela frase, dita ao modo Verissimo de dizer coisas fundas como quem não quer nada.
— Quando a gente acha que tem todas as respostas, vem a vida e muda todas as perguntas.
Acontece que hoje quero lembrar de outra história, de quando Verissimo traduziu com perfeição um drama da vida privada: o horror ao polêmico e onipresente uso da salsinha.
Segundo o dicionário Verissimo dos fatos terríveis, embora persista certa indefinição de conceitos, salsinha é tudo o que está no prato para enfeitar ou confundir o paladar. Os mais rigorosos definiriam o ingrediente como aquele verdinho picado que a gente não consegue tirar de cima da comida. Para outros, a palavra abarca tudo de persistentemente supérfluo na vida, da retórica ao porta-aviões, passando pelo cheiro-verde.
Faço parte deste último grupo, dos que preferem dispensar excessos, discursos autocentrados, invenções de utilidade duvidosa e o trio coentro-salsinha-cebolinha.
Evidentemente, o líder da rebelião antissalsinha sabia que nossos opositores eram muitos. Os defensores do verdinho dizem que ela existe para fazer bonito, o que, para Verissimo, só confirma que cheiro verde não serve pra nada além de roubar espaço da comida.
Que mantenham a calma. Verissimo não reivindicava o fim da salsinha. O ingrediente — palavras dele — é uma tradição milenar, e todos sabemos como as velhas ordens custam a morrer. O que ele postulava era o direito de escolha.
Seu lema virou meu também: não está escrito em lugar algum que um prato só pode ir para a mesa depois de uma generosa quantidade de salsinha espalhada por cima de tudo. Em memória do filho de seu Érico e dona Mafalda, vou um pouco além. Nosso movimento pleiteia que a salsinha seja explicitamente descrita no cardápio em pratos que optarem por usá-la como ingrediente, permitindo a fuga do conviva em caso de necessidade.