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Crônica

Carta aberta a Fernanda Torres (ou da beleza de ser contida)

Sua interpretação, Fernanda, resulta de uma profunda capacidade de compreensão do outro, de uma sensibilidade à flor da pele e de uma inteligência assombrosa

Publicado em 15 de Novembro de 2024 às 13:59

Públicado em 

15 nov 2024 às 13:59
Ana Laura Nahas

Colunista

Ana Laura Nahas

ana.laura.nahas@gmail.com

Prezada Fernanda,
Chorei uma, duas, três vezes ao ver “Ainda Estou Aqui” no cinema. Embora estivéssemos com colunas e pernas ligeiramente mal-acomodadas pela sala abarrotada, o desconforto maior era o passado que passava na tela, o fato de que ele segue à espreita, vivíssimo, tamanha a força da ignorância e do conservadorismo.
Você sabe do que estou falando, Fernanda. Sei que sabe. As entrelinhas e os escancaros confirmam: em tempo de explosões, bombardeios e profusão de notícias falsas, todo cuidado é pouco.
Estou falando do início da década de 1970, do sombrio período retratado no filme que você tão bem protagoniza. Mas sabemos que, dadas as circunstâncias, as fragilidades e as divisões a que temos assistido, o ano podia ser 2023, 2026 ou agorinha mesmo.
Sabe o que me pegou, além de tudo? A casa ensolarada que serve de cenário para “Ainda Estou Aqui” vai desbotando, escurecendo, perdendo o cheiro leve da praia em frente, conforme os minutos passam. Seus portões e suas cortinas se fecham, literal e simbolicamente, enquanto a opressão do regime militar se intensifica.
Aos poucos, a música girando na sala, a risada das crianças, o afeto entre amigos e o suflê na mesa dão lugar à pesada presença da impotência, da ausência de notícias, de perspectivas, de explicações.
Sua interpretação, Fernanda - alguém disse, com toda razão -, resulta de uma profunda capacidade de compreensão do outro, de uma sensibilidade à flor da pele e de uma inteligência assombrosa. Você dá vida a uma figura que morre e renasce após o desaparecimento do marido, contida, mas imensa, magrinha, mas um peso só.
Fernanda Torres em cena de 'Ainda Estou Aqui'
Fernanda Torres em cena de 'Ainda Estou Aqui' Crédito: Divulgação
A história real que você ajuda a reproduzir no filme segue fresca na memória de muitos dos nossos. Emociona a firmeza de seus passos, apesar do olhar que vagueia, desesperado, na luta de sua personagem pelo reconhecimento de uma morte sem corpo, sua resistência às violências da ditadura, da saudade e dos sumiços.
Outro dia ouvi dizer da ideia de que certos filmes começam quando a luz do cinema se acende. Ali, no final da sessão, no momento em que a gente decanta o que viu, as histórias se desdobram em outras, novas percepções se desenham, conexões se fazem e se refazem, para além da tela.
Obrigada por iluminar uma página tão sombria da História com a força da sua atuação.

Ana Laura Nahas

É jornalista e escritora, com passagens pelos jornais A Gazeta e Folha de São Paulo e pelas revistas Bravo! e Vida Simples. Autora dos livros Todo Sentimento e Quase um Segundo, escreve aos domingos sobre assuntos ligados à diversidade, comunicação e cultura

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