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Crônica

Contardo Calligaris e um novo olhar sobre um velho tema: o sentido da vida

Livro mostra que a grandeza cotidiana pode estar no modo como nos permitimos viver até as coisas pequenas e mais banais

Publicado em 21 de Maio de 2023 às 00:30

Públicado em 

21 mai 2023 às 00:30
Ana Laura Nahas

Colunista

Ana Laura Nahas

ana.laura.nahas@gmail.com

Retrato do colunista da Folha de S.Paulo, o psicanalista Contardo Calligaris
O psicanalista Contardo Calligaris Crédito: Bruno Santos/Folhapress
Poucos temas na história foram tantas vezes explorados quanto ele. Na literatura, no cinema, na mesa de bar, nos cadernos a lápis ou na fila do pão, as questões a seu respeito brotam em prosa, verso e interrogações. Poetas buscam seu espírito, filósofos perseguem sua essência, mortais comuns como eu e talvez você tentam encontrá-lo com maior ou menor afinco.
Afinal, qual o sentido da vida?
O que define uma vida plena? O que significa viver uma vida boa? O que quer dizer uma vida interessante? Um morto pode ser feliz? É possível medir a felicidade de uma existência ao longo dos anos ou apenas quando eles chegam ao fim?
A partir dessas perguntas, o novo e póstumo livro de Contardo Calligaris consegue apresentar um outro ângulo sobre o batidíssimo assunto. E é a simplicidade com que isso se coloca o que mais me comoveu na obra que li estes dias.
[Recomendo].
O sentido da vida é a própria vida concreta, afirma o autor, no livro finalizado poucos dias antes da sua morte. A felicidade, ele escreve, não depende de a vida e o mundo terem um sentido. Ao contrário: o bem-estar, o bom espírito, precisam de uma situação objetiva em que nós e o universo estejamos em harmonia.
Contardo Calligaris morreu em março de 2021, aos 72 anos. Perdemos um sujeito simpático, uma figura pública notável e a força de suas reflexões logo quando era preciso iluminar os dias de dureza, tensões e distanciamentos do auge da pandemia.
Felizmente certos olhares ultrapassam a vida de seus autores. Eles partem, mas o pensamento permanece, a nos ensinar, com a sutileza dos sábios, que a grandeza da vida pode estar - por que não? - no modo como nos permitimos viver até as coisas pequenas e mais banais.

Ana Laura Nahas

É jornalista e escritora, com passagens pelos jornais A Gazeta e Folha de São Paulo e pelas revistas Bravo! e Vida Simples. Autora dos livros Todo Sentimento e Quase um Segundo, escreve aos domingos sobre assuntos ligados à diversidade, comunicação e cultura

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