Um alento vem de longe nestes dias de sonhos, planos, perspectivas, projetos e 300 mil vidas ceifados pela
pandemia. É Machado de Assis, o bruxo do Cosme Velho. O sujeito que nos conforta com suas palavras desde 1861 volta à baila para nos lembrar, uma vez mais, do que é oposto à ignorância, ao peso, à brutalidade e ao desencanto.
Na terça-feira, 2 de junho, uma nova tradução de “Memórias Póstumas de Brás Cubas” para o inglês chegou aos Estados Unidos. Os exemplares se esgotaram em menos de 24 horas. Coincidência ou não, era o oitavo dia dos protestos desencadeados pelo assassinato de George Floyd, um ex-segurança negro como Machado de Assis, seu pai e seus avós.
Machado de Assis, filho de ex-escravos alforriados, teve melhor sorte, se assim se pode dizer. Mas enfrentou durante toda a vida o racismo, a herança escravocrata e a ambiguidade de criticar a burguesia ao mesmo tempo em que ascendia para dentro dela.
“Memórias Póstumas” foi lançado em 1881, sete anos antes da abolição da escravatura. No romance, o finado Brás Cubas, filho de uma típica família da elite carioca no século XIX, decide escrever sua autobiografia a partir do túmulo. O morto nos conta sua saga com ironia e acidez, dedicando o volume póstumo ao verme que primeiro roeu as frias carnes de seu cadáver.
O protagonista revê a infância de menino rico, mimado e endiabrado, a paixão por uma prostituta que durou 15 meses e 11 contos de réis, e também a própria morte. A causa: pneumonia, adquirida enquanto ele trabalhava obsessivamente na criação do emplastro Brás Cubas, um medicamento sem comprovação científica que se pretendia destinado a aliviar a melancolia da humanidade.
[Qualquer semelhança com fatos reais é mera coincidência].
Ao revisitar a própria trajetória, o defunto Brás Cubas retrata também a escravidão, as desigualdades sociais, a chegada dos valores liberais ao país e a tentativa de modernização de uma elite enraizada no atraso. “Memórias Póstumas” - palavras do autor - é um livro que, por mais risonho que pareça, guarda um sentimento amargo e áspero. Não deixa de ser curioso que ele volte a ser notícia exatamente agora.