Faz alguns dias que a irretocável
carta aberta de Jamil Chade sobre o drama de ser mulher em tempos de guerra ganhou a internet. Os ecos do que ele escreveu ainda seguem, em alto e bom som, renovados diariamente pelas notícias a respeito dos muitos desrespeitos que nos atingem, individual ou coletivamente, nesta bruta temporada.
[Pausa para recuperar a fé na humanidade].
Na carta, Jamil Chade mostra como a violência sexual tem sido uma arma recorrente ao longo da História.
Jornalista com longa experiência na cobertura de conflitos armados e suas consequências sociais e psicológicas, ele escreve, com toda razão, que mulheres precisam passar a vida se explicando apenas por serem mulheres. O que dizer, então, dos direitos femininos durante uma guerra, onde as regras e a moral cedem seu lugar à força e às leis da bomba?
Em um mundo tão frenético, o áudio do deputado e a carta aberta do jornalista talvez já fossem página virada depois de uns dias, não houvesse tantas outras notícias, na sequência, a lembrar que palavras não são apenas palavras.
Quatro dias depois do áudio do deputado, por exemplo, um levantamento mostrou que 2022 tem a menor verba dos últimos quatro anos destinada pelo
governo federal para o combate à
violência contra a mulher.
Palavras - pois é - não são apenas palavras. Elas verbalizam a forma como enxergamos o mundo, amamos ou desprezamos os semelhantes, elegemos quem nos representa e escolhemos de que lado estamos em tempos de paz e em tempos de guerra.