A ginasta Simone Biles tem apenas 24 anos, um a mais que a tenista Naomi Osaka. As duas são atletas de enorme projeção nos esportes que praticam e de muito prestígio nas competições que disputam. Mas tanto uma quanto a outra, a certa altura deste turbulento 2021, decidiram dar um passo atrás e sair temporariamente de cena.
O salto final perdido no ar e a tristeza no olhar depois da apresentação em Tóquio indicavam o tamanho da exaustão emocional da ginasta norte-americana, uma especialista em saltos precisos e saídas perfeitas, quatro vezes medalhista de ouro em jogos olímpicos, 30 vezes se somarmos também as medalhas de prata e bronze. “Eu não confio mais tanto em mim mesma. Não somos apenas atletas. Somos pessoas”, ela disse.
Por motivos bastante parecidos, dois meses antes, Naomi Osaka optou por não jogar dois torneios-símbolo do seu esporte. A tenista japonesa deixou Roland Garros e Wimbledon, desconstruindo com uma frase aparentemente simples um bocado de preconceitos em torno de uma doença que afeta mais de 300 milhões de pessoas no mundo: “A verdade é que sofri períodos longos de depressão e tenho tido muita dificuldade de lidar com isso”.
As declarações evidenciam a pressão que cerca a vida de atletas de alto rendimento. Mas, muito mais do que isso, as saídas de Simone Biles e Naomi Osaka revelam um lado gente como a gente de duas jovens mulheres treinadas para engolir o choro e seguir em frente, mas profundamente incomodadas com um peso que podia ser também o peso carregado por muitos de nós e dos nossos.
Não é à toa que o termo “saúde mental” seja um dos mais buscados na internet ao longo da pandemia. Quando duas figuras do tamanho de Simone Biles e Naomi Osaka falam abertamente sobre o assunto, dão uma enorme contribuição para a sociedade avançar.
Apesar de toda a informação disponível, ainda tem muita gente que vê os problemas psicológicos como frescura, fraqueza ou falta de vontade. Em que pesem os riscos de um evento coletivo nas barbas da pandemia e o desânimo geral das nações, os Jogos Olímpicos de Tóquio têm se mostrado uma boa arena para iluminar esse tema.
Os jogos no Japão são os jogos da diversidade, da skatista que mostrou ao mundo o valor da brincadeira, da comentarista ligeiramente descabelada e um pouco boca suja. São os jogos do ponteiro do vôlei que usa a graça como forma de resistência e afirmação, do Baile de Favela, do pronome neutro em rede nacional. Mas os jogos do Japão são, principalmente, os jogos do chega de romantizar a pressão e a superação a qualquer custo, precisamos mesmo é falar de saúde mental.