Eu ainda pensava no quanto os gregos tinham razão quando nos ensinaram que longa é a arte e breve é a vida, e de repente dormimos com a
morte de Paulo José e
acordamos com a de Tarcísio Meira. Dois gigantes da dramaturgia brasileira que partiram num curtíssimo espaço de tempo, deixando um enorme legado não apenas para o cinema, a TV e o teatro, mas também para a memória afetiva de muitos de nós.
Não conheço a TV sem Tarcísio Meira. Do mesmo jeito, Paulo José e cinema brasileiro andam juntinhos nas lembranças mais antigas que tenho, desde sua voz no texto potente de “Ilha das Flores” e sua presença marcante em “Eles Não Usam Black Tie”.
Muito se falou ao longo da semana sobre a cena famosa em que os dois atuaram juntos e sobre suas trajetórias, uma mais rebelde e politizada, outra mais tradicional, embora também histórica. Muito se falou na beleza meio hollywoodiana de um e na carinha gente como a gente do outro.
[Sim, vacinas salvam muitas vidas, mesmo que não salvem todas.]
O Brasil de 2021, da pandemia, mas também da alegria e da solidariedade, chorou as mortes de Paulo José e de Tarcísio Meira coletivamente. Duas perdas que sentimos um pouco como se fossem nossas, como se ainda precisássemos de mais alguma coisa para lembrar do quanto anda difícil ser artista, ser constante e ser cortês no Brasil de 2021.
Perdemos gente demais no último ano, vocês sabem. Perdemos gente que nos fazia rir, como
Paulo Gustavo, gente que nos fazia flutuar, como
Aldir Blanc. Perdemos gente que fez a estatística sair do noticiário da TV para sentar no sofá, bem do nosso lado e gente que morreu de outras causas, mas igualmente fez de 2021 um dos anos mais difíceis da história toda.
Perdemos muitos fazedores de cultura, perdas direta ou indiretamente ligadas ao descaso com a arte, a saúde mental, o equilíbrio e a leveza perdidos pelo caminho.
As partidas de Paulo José e Tarcísio Meira se somam às muitas perdas do setor cultural em 2021. Mas também reforçam, mais uma vez, o poder e a imensa capacidade que a arte tem de nos unir.