Como numa guerra, nos dividimos entre despreocupados e zelosos, céticos e amedrontados, individualistas e generosos. Cada escolha dizia um pouco a nosso respeito e ao modo como tentávamos nos virar diante do caos: quanto papel higiênico estocar, como lidar com a escassez, as ausências e a solidão, se cuidado ou distração, distantes ou aglomerados.
Agora dizem que começamos a deixar para trás as memórias da pandemia. De acordo com pesquisadores de memória autobiográfica e psicologia, por causa da sobrecarga de informações e da monotonia da vida na quarentena, nosso cérebro tende a esquecer detalhes do que vivemos.
Leio o que eles dizem numa reportagem recente de jornal. As lembranças estão centradas em nossas histórias de vida e no que mais nos afeta pessoalmente. Lembramos claramente os que perdemos para a Covid, mas aos poucos o entorno se apaga, os detalhes embaçam, novas memórias se erguem no lugar.
No caso da pandemia em especial, tanta coisa se passou em tão pouco tempo que ficou difícil para o cérebro codificar a sobrecarga de informações que tivemos que filtrar - máscaras, distanciamento social, a etiqueta do home office, calls e lives em profusão, mais de 15 milhões de mortos, ondas, variantes e subvariantes.
A pandemia não roubou apenas tempo, energia, brisas e vidas. Ela afetou, também, as sutilezas da memória. As sutilezas podem mesmo morar em muitos lugares, mesmo que imperceptíveis: num olhar, num gesto, numa palavra, num toque, numa lembrança que suaviza tudo.
Sutileza é potência, respeito, cuidado, afeto, atenção. A pandemia, suas cenas e heranças são justo o oposto. Felizmente, conforme elas se distanciam de nós, ganhamos espaço para escrever novos capítulos e quem sabe refazer os jardins.