O governo brasileiro ajudará muito o país se mudar o tom em relação às perspectivas geradas pelo acordo entre União Europeia e Mercosul, firmado há poucos dias, em plena pandemia, após 20 anos de negociações. Quantas coisas políticas e econômicas mudaram em duas décadas? Quantos cenários foram alterados em diversos países? Muitos, obviamente, até ser possível convencer europeus reticentes e protecionistas.
Nem tudo são flores nesse acordo, mas não faz sentido o Brasil mostrar-se desanimado e pessimista. Porém, infelizmente, dá sinais descrença. Em recente mesa redonda organizada pela Federação das Câmaras de Comércio Exterior, em parceria com a Federação do Comércio do Rio de Janeiro, o vice-presidente Hamilton Mourão disse que tal acordo "parece que começa a fazer água”.
Como "fazer água" se praticamente nem foi dada a largada? A costura final do acordo foi fechada faz um mês, no dia 27 do mês passado. Só as circunstâncias dirão quando os entendimentos entrarão no campo prático. A certeza que se tem é que de os frutos esperados poderão vir paulatinamente. Não serão colhidos da noite para o dia. A retração do PIB em 2020, com reflexos que devem se prolongar em 2021, certamente contribuirá para ditar ritmo mais moroso em várias áreas de negócios. A afirmação não deve ser vista como posição oficial do governo brasileiro, mas é inoportuna.
Para se ter uma ideia de que o ritmo é lento, vale lembrar que a pré-costura desse pacto de comércio aconteceu há um ano, em junho de 2019. Na ocasião, o jornal A Gazeta destacou a importância do evento. Uma das páginas da seção de Economia teve a seguinte manchete: "Acordo do Mercosul com União Europeia deve duplicar exportações do ES".
Assinalou que os embarques capixabas para o bloco europeu somaram US$ 1,5 bilhão em 2018. Já esta coluna (edição de 30/06/2019) assim se expressou: "O café conilon, que responde por 35% PIB agrícola do Espírito Santo, tem potencial para ser no Estado o maior beneficiário do bilionário acordo entre Mercosul e União Europeia", uma alusão ao uso intensivo desse tipo de café na fabricação do solúvel.
A explicação dada pelo vice-presidente sobre a perspectiva de "água" no acordo UE/Mercosul é uma referência ao momento “particularmente complicado” diante da crise econômica vivida pela Argentina. Ele citou a dívida do país. Ora, mas isso não é motivo para esmorecer. O Brasil também não está bem na fita. A situação fiscal é muito ruim e sua economia caminha para uma recessão de mais de 5,5% em 2020, após estar há três crescendo apenas 1% anualmente. Hoje, o país tem mais pessoas em idade ativa fora do mercado de trabalho do que dentro.
Mercosul e União Europeia fecharam o maior acordo entre blocos do mundo. É nessa perspectiva que o Brasil precisa trabalhar. Juntos, os dois blocos representam 25% da economia mundial e um mercado de 780 milhões de pessoas. É nesse sentido que é o maior do planeta. Se o critério for o número de países envolvidos e a extensão territorial, o acordo só perde para o Tratado Continental Africano de Livre Comércio, que envolve 44 países da África e foi assinado em março deste ano.