No final do ano passado, Donald Trump acusou o Brasil de desvalorizar a sua moeda para "tirar proveito" dos exportadores americanos. "Isso torna difícil para os nossos fabricantes e agricultores exportar seus produtos de maneira justa", reclamou. Ele não sabia o que estava por vir. Naquela época, cada dólar custava R$ 4. Ainda não tinha começado a grande escalada de desvalorização do dinheiro brasileiro. Hoje, o patamar do dólar está acima de R$ 5,60. Há poucos dias chegou a R$ 5,90. Beirando R$ 6, o que era inimaginável há alguns meses.
Em 2020, até agora, o real derreteu-se 40% frente ao dólar. É a moeda de pior performance no quadro das 30 maiores economias do mundo. Muito pior do que o peso argentino, que murchou 27,5%, com o país em situação econômica péssima. Inclusive teve de renegociar sua dívida com o FMI, por incapacidade de pagá-la. Na América do Sul, o peso da Colômbia desvalorizou-se 16,5%; o sol, do Peru, caiu 8,8%; e o peso do Chile desgastou-se apenas 4,4%.
Em tese, a desvalorização do real torna mais competitivo os produtos brasileiros, ajuda exportações, e pode estimular investimentos. Mas o Brasil não está tirando o proveito comercial que poderia com o câmbio. Por quê? Pela redução do ritmo da economia mundial e, principalmente, pela nossa falta de competência para ampliar mercados.
No ano, até setembro, o Brasil acumula saldo positivo de US$ 42,4 bilhões na balança comercial, porém amarga decréscimo de 7% nas exportações. Os números seriam muito piores, não fosse o bom desempenho do agronegócio nas vendas ao exterior. É a atividade que mais tem se beneficiado com o câmbio. Já as exportações do Espírito Santo recuaram 30,6% de janeiro a agosto de 2020 ante os mesmos meses do ano passado, segundo dados do Ministério da Economia.
Os principais fatores que alimentam a desvalorização do real são a crise fiscal aguda, a expansão do endividamento, puxada pelo aumento do buraco nas contas, o pandemônio ambiental que começa a isolar economicamente o Brasil no cenário global, e a falta de perspectiva de crescimento sólido.
E não se pode contar com dinheiro público federal para impulsionar a retomada, investindo em obras. O déficit primário do governo (que não inclui despesas com os juros da dívida) aproxima-se de 12% do PIB e terá de ser reduzido a 3%, de acordo com o projeto de orçamento em análise no Congresso.
O clima de incerteza tem consequências danosas. Uma delas é a retração de empreendedores, dificultando o crescimento do PIB. Os investimentos estrangeiros diretos no Brasil diminuíram 41% de janeiro a agosto deste ano, frente ao mesmo período do ano passado. É a pior queda já vista ao longo desses meses. São 10 bilhões de dólares a menos - dinheiro que deveria estar dinamizando atividades e gerando empregos. A pressão do governo para criar um programa social em meio à crise fiscal gera desconfiança em relação à preservação do teto de gastos, e isso inibe investidores.
Em situação normal da economia, o patamar muito alto do dólar estaria puxando a inflação para cima. Mas não há demanda para isso. Sobra desemprego e recessão. O grande efeito está sendo o encarecimento de insumos e matérias-primas importadas por nossas companhias.