A crise mundial da saúde pública não livra o Brasil de ameaças de instituições internacionais à sua economia. Há duas semanas, o governo Bolsonaro recebeu uma carta assinada por 29 companhias financeiras que gerenciam mais de US$ 3,7 trilhões em ativos. Nela, os bancos advertem sobre a necessidade de frear danos ambientais na Amazônia, por alimentarem "uma incerteza generalizada sobre as condições para investir ou fornecer serviços financeiros ao Brasil". E foram adiante: "É provável que os títulos soberanos brasileiros sejam considerados de alto risco se o desmatamento continuar".
Há também articulações concretas para boicotar as exportações brasileiras - e isso afeta diretamente o Espírito Santo. Há duas semanas circulou na Alemanha um abaixo-assinado com mais de 300 mil assinaturas de clientes de grandes redes de supermercados pedindo para não revenderem produtos brasileiros, como represália à destruição ambiental. O abaixo-assinado menciona o PL 2.633 que tramita na Câmara propondo flexibilização das regras para a regularização fundiária que, segundo os alemães, poderia incentivar novas invasões de terras públicas e mais desmatamentos.
O cerco está se fechando. Nada menos de 265 organizações civis da Europa e América Latina denunciam frequentemente o governo brasileiro por agressões ao ambiente. A Comissão Europeia, órgão executivo da União Europeia (UE), quer uma estratégia mais incisiva dos países do bloco, para evitar que produtos brasileiros cheguem às prateleiras dos supermercados.
Não se sabe se a gritaria é orquestração de fundo ideológico. Ou estratégia política para tirar o foco da atenção pública sobre o fracasso administrativo (com preço eleitoral) de alguns governos da Europa. Pode também ser parte de uma guerrilha econômica, ditada por interesses reais não confessados.
O fato é que nunca tantos se uniram, organizadamente, contra o Brasil. Enquanto isso, continuamos dando munição aos protestos. A agressões ambientais avançam, notadamente na Amazônia. Dados preliminares sobre derrubada de florestas apontam que o recorde de 2019 pode ser igualado um superado em 2020. Neste ano, até maio, foram emitidos alertas de desmate abrangendo dois mil quilômetros quadrados, 35% mais do que em igual período.
O governo Bolsonaro resolveu responder aos bancos internacionais ameaçadores. Os ministérios do Meio Ambiente, Agricultura e Relações Exteriores estão preparando, em conjunto, uma carta a ser enviada na próxima semana aos banqueiros. É uma boa iniciativa, mas os empresários brasileiros exportadores cobram do presidente uma ação mais ampla visando ao entendimento com os mercados do exterior.