Há exatamente um ano o Espírito Santo submergia na grande enchente de janeiro de 2020. Não tanto quanto a maior da história, no início de 1979. O aguaceiro do ano passado começou na virada da primeira para segunda quinzena de janeiro, seguindo-se 15 dias diluvianos. Era a primeira pancada a tirar o rumo da sociedade e da economia capixaba em 2020. A segunda, a infernal Covid-19, continua a enterrar vidas e atividades econômicas e a emperrar a retomada do ritmo anterior.
Isso se complica porque o Brasil está mal governado - fato que, aliás, tolhe melhor aproveitamento do potencial de crescimento do Espírito Santo. O quadro político nacional também não está cooperando. O embate ideológico inibe ou esvazia decisões importantes no Congresso, no momento envolvido em batalha interna pelas presidências da Câmara e do Senado. Neste mês de janeiro, já com grade atraso, deveriam estar sendo discutidas reformas estruturantes.
Desde a enchente do ano passado, o caminho da reconstrução tornou-se longo, exigindo esforços em todo o Estado. No interior, a enxurrada destruiu ou danificou 639 edificações públicas e privadas, causando mortes. As águas de janeiro também levaram 211 pontes (deixando, por algum tempo, várias localidades isoladas). Também danificaram-se 200 mil metros quadrados de estradas e rodovias, segundo estudo divulgado pelo Ideies.
Imagina-se que os prejuízos, em todos os sentidos, poderiam ter sido menores não fosse, em muitos casos, a ausência de obras públicas necessárias e a omissão em relação a normas preventivas de segurança. Outro agravante: a leniência. Vista grossa em situações de risco costuma ocorrer por interesses políticos mesquinhos ou bancada por corrupção. Suborno.
Nada menos que 39 municípios foram atingidos pela enchente. A metade dos 78 existentes no território capixaba. Destes, 6 decretaram estado de calamidade pública. Em 16, situação de emergência. O reflexo social veio em forma de drama: destruição de fontes de renda familiar (agricultura debaixo d'água e pequenos negócios inviabilizados), desemprego, desabrigados, desalojados.
E fome... Forte agravamento da pobreza. Num primeiro momento, mobilizaram-se redes de solidariedade, atenuantes e indispensáveis. O socorro da sociedade é mais ágil do que o do poder público - do qual deveria cobrar muito mais, democraticamente. Em apenas em situações de emergência, mas sempre e em todos os aspectos, principalmente competência.
Por óbvio, no poço das enchentes tornou-se inevitável o afundamento econômico. Começava a se instalar em janeiro a recessão de 2020. Em muitas localidades, comércio arrasado, prejuízos vultosos e dívidas até hoje não totalmente liquidadas. A arrecadação tributária fortemente afetada. Muitos negócios não reabriram. A bem da verdade, diga-se, não faltou apoio creditício diferenciado, compatível com o quadro, mas a pandemia agravou debilidades econômicas. Os municípios mais atingidos têm forte participação na economia estadual. São responsáveis por cerca de 10% do PIB capixaba. Reúnem cerca de 15 mil estabelecimentos.
Em 2020, quase 10 mil empresas foram formalmente fechadas no Espírito Santo. É um número abaixo da realidade. Muitos pequenos negócios encerraram as atividades e nem sequer deram baixa na Junta Comercial. É verdade que no mesmo período foram criadas quase 14 mil firmas, mas em ambiente de muita fragilidade econômica, rentabilidade diminuta e, portanto, baixa possibilidade de sobrevivência.
Em toda parte do mundo, recuperação econômica costuma ser lenta. Nada é reconstruído num estalar de dedos. Mas isso não é desculpa para o Brasil continuar perdendo competitividade, como alerta a saída da Ford. É preciso maior pressão do setor privado, sobre o governo e o Congresso, para ter melhor condição de trabalhar. A disputa política não pode ter efeito paralisante no país.