A reação em cadeia do bolsonarismo em busca da defesa de sua cidadela
Política
A reação em cadeia do bolsonarismo em busca da defesa de sua cidadela
A fúria não vai embora. Ela é um produto dos novos tempos dos algoritmos e das big techs. Transformando ressentimentos e frustrações em fúria
Publicado em 20 de Setembro de 2025 às 04:30
Públicado em
20 set 2025 às 04:30
Colunista
Antônio Carlos de Medeiros
acmdob@gmail.com
Nesta semana, Brasília virou palco de uma verdadeira blitzkrieg do bolsonarismo em defesa da pauta da anistia “ampla, geral e irrestrita”. Trata-se, como se sabe, principalmente da anistia para Jair Bolsonaro.
Como era de se esperar no pós-julgamento no STF da tentativa de golpe de estado, a turbulência política escalou muitos níveis de decibéis. A caixa de ressonância é o Congresso Nacional, espelhando a dissonância das redes sociais.
A blitzkrieg bolsonarista tende a perder tração gradualmente, até a definição oficial das candidaturas presidenciais em 2026. Lá pelos idos de junho/julho/agosto.
Mas neste final de 2025, até o recesso político de Brasília para o Natal e o carnaval, a agonia dissonante deve manter tração. É hora da fúria no palco das redes sociais.
A fúria não vai embora. Ela é um produto dos novos tempos dos algoritmos e das big techs. Transformando ressentimentos e frustrações em fúria.
O Estado brasileiro está distante das aspirações e expectativas da sociedade brasileira. Os três poderes da República com déficit de legitimidade e eficácia. Frustrações.
O bolsonarismo também não vai embora. Jair Bolsonaro compreendeu e assimilou o espírito da época em 2013. E assumiu o perfil da nova direita.
O ex-presidente Jair Bolsonaro, acompanhado de seu filho, Jair Renan, deixa hospital sob forte esquema de segurança, após passar pro procedimentos em BrasíliaCrédito: Fabio Rodrigues-Pozzebom/ Agência Brasil
Só que o bolsonarismo sem Jair Bolsonaro vai precisar de alinhamento com uma direita mais moderada, se quiser se entender com o povo e sobreviver politicamente.
O Brasil é hoje pró-centro direita e moderação. Não quer a fúria das narrativas ideológicas e das realidades paralelas. Quer a “fúria” da determinação pelo fazer, gerir e entregar. Os brasileiros, vale repetir, têm déficit de expectativas e entregas.
Vem daí a emergência de novo espírito de época, na direção do contorno da polarização ideológica e da sua substituição pela velha e boa divergência democrática civilizada. Como eram, por exemplo, as divergências e a “polarização” entre o PSDB e o PT nas eras FHC e Lula 1 e 2.
Agora, os decibéis e a retórica ainda vão alimentar a turbulência e a eterna sensação de beco sem saída.
Mas lá em 2026, no pega-pega das eleições, Sua Excelência o Eleitor não deverá basear suas razões de votos na retórica das narrativas. Vai ser pragmático. Vai buscar o perfil de gestor que faz entregas de boas políticas públicas.
Isso é relevante: em 2026 é provável que a retórica das narrativas não se comunique com o pragmatismo de crescente espectro do eleitorado. São os chamados “nem-nem”, cada vez mais numerosos. Eles querem fatos reais. Não promessas.
Se os futuros candidatos insistirem no modo polarização, será provável alto índice de alienação eleitoral (brancos, nulos, abstenções). Aliás, até presumo que se os votos em branco voltassem a ser votos válidos, como já foram no passado, um simbólico “mister em branco” poderia ser muito competitivo.
Se porventura o processo eleitoral de 2026 refletir mais uma vez o modo polarização de 2018 e 2022, o enraizamento do velho dilema Estado “versus” Sociedade – com crise de representatividade e de governabilidade – poderá tornar o nosso ano de 2027 uma réplica de 2013. Será?
Melhor não. Melhor o caminho da conciliação e da paz, com a eleição de uma Frente Ampla de verdade em 2026/2027.
Para o poder político fazer as pazes com a sociedade.
E derrotar o ressentimento e a fúria.
Isso já foi possível no Brasil.
Já houve um tempo em que os brasileiros viveram com sensação de bem-estar no seu próprio país. Por exemplo na era FHC e na era Lula 1 e 2.
É viável e está ao alcance do exercício da soberania popular na cabine eleitoral em outubro de 2026.
Antônio Carlos de Medeiros
E pos-doutor em Ciencia Politica pela The London School of Economics and Political Science. Neste espaco, aos sabados, traz reflexoes sobre a politica e a economia e aponta os possiveis caminhos para avancos possiveis nessas areas