No fim de 2020, a única certeza que temos é a incerteza. Sabemos que não sabemos. Tem sido admirável o esforço analítico de produção de cenários, mas tem pairado as nuvens da incerteza. Na economia, a euforia fugaz da miragem do crescimento em forma de “V” já passa para a probabilidade da retomada em forma de “K”, com o recrudescimento da
pandemia no mundo inteiro. Recuperação incerta, desigual e instável. Assim, vamos tateando. A vacina é a esperança que move o mundo neste momento.
Para além dos vaticínios, o que se pode é intuir. A Covid-19 está mudando a trajetória dos vetores que moldam o mundo moderno. A globalização foi truncada. A revolução digital foi acelerada. A rivalidade geopolítica entre a China e os Estados Unidos cresceu. Ao mesmo tempo, a pandemia aprofundou o flagelo das desigualdades e mostrou o despreparo planetário diante do impacto destrutivo das mudanças climáticas.
Sob o guarda-chuva destes vetores, é provável um processo de mudanças estruturais nos modos de viver, trabalhar, produzir, consumir, criar. Destruição criativa e reinvenção das cidades. No meio do caminho, a aceleração da extrema pobreza, o aumento da anomia social e da raiva, o recrudescimento dos riscos para a saúde e a instabilidade econômica. Tudo permeado por um grande stress na “diplomacia da vacina”: luta para produzir, distribuir e aplicar. Quando? Como? Aonde? Quem?
Enquanto isso, no
Brasil, a Macroplan faz observações e alertas cirúrgicos. A dívida pública pode escalar para 112% ou até 156% em 2030, segundo o IFI-Senado. O desemprego, já em 14,4% tende a crescer mais ainda. A segurança sanitária requer mais prioridade para o fortalecimento do SUS. A educação precisa se ajustar ao modelo híbrido presencial/virtual. A aceleração tecnológica tornará o mundo digital na plataforma dominante. Forças disruptivas.
No meio do caminho tem uma pedra. Enquanto a vacina não se universaliza, o zigue-zague econômico, social, político e cultural vai continuar permeado por baixo investimento; destruição de empresas; precarização do trabalho; aposentadorias precoces; diminuição das horas de trabalho e produção; queda da demanda; e doenças crônicas.
Neste contexto de crises intermitentes, os manuais do ajuste e manejo fiscal dos governos precisam pensar e agir fora da caixa. Os fantasmas recorrentes da recessão e da depressão precisam ser enfrentados com suporte fiscal aos investimentos públicos. Provocativo, Martin Wolf afirmou outro dia no Financial Times que a economia nacional não pode ser pensada como se fosse uma economia doméstica: “um governo não é uma casa de uma família”. É preciso enfrentar cicatrizes de longo prazo.