Economia capixaba pode ter ainda ritmo de baixo crescimento
Novos rumos
Economia capixaba pode ter ainda ritmo de baixo crescimento
O ES precisa criar condições regionais, nacionais e internacionais para evitar a chamada armadilha do baixo crescimento. Buscar a articulação de investimentos com capitais regionais, nacionais e internacionais. Sempre com o foco em inovação e produtividade
Publicado em 20 de Julho de 2024 às 01:00
Públicado em
20 jul 2024 às 01:00
Colunista
Antônio Carlos Medeiros
acmdob@gmail.com
Continua a saga da economia capixaba como plataforma de exportação de commodities. Sabemos que isso representa baixa agregação de valor para o crescimento sustentável do PIB regional. Embora tenha evoluído para mudar de perfil, o PIB capixaba ainda tem relativa dependência da produção e exportação de commodities.
Para Orlando Caliman, a economia capixaba pode ter perdido tração. Ou pode ter se acomodado a um “ritmo contratado” de crescimento. O desafio, diz ele, é perceber que “a força inercial do crescimento contratado não garante por si só um Espírito Santo competitivo inovador e sustentável”. Pode reproduzir a trajetória do crescimento inercial, segundo ele.
O Instituto Jones dos Santos Neves (IJSN) tem uma longa série histórica da trajetória do PIB capixaba. Cresceu com média anual de 11% nos anos 1970. Já entre 1980 e 2020 a média anual caiu para 3%. Se for considerado o período 2000/2020, a média anual foi de 2,3%.
Ou seja: perdeu tração. Embora tenha um histórico de crescimento acima da média nacional. Caliman chama a atenção para o fato de que “a perda maior de tração coincide com perda de capacidade de geração de ICMS”. Isto, segundo ele, principalmente por conta da queda do Fundap a partir de 2012.
Desde os anos 1970, o Estado tem usado um engenhoso conjunto de incentivos fiscais e financeiros para alavancar o PIB estadual. A tração veio das commodities e do arcabouço de incentivos para atração de novas indústrias e de atividades de centros de distribuição logística de mercadorias, principalmente.
Para Caliman, a estratégia adequada “parece então ser a de crescer diversificando em produtos, mercados e inovação, e tornando mais complexa a sua economia”. Entretanto, esse desafio se torna mais complexo quando se trata da indústria de transformação.
Outro dia, Edmar Bacha mostrou que a indústria de transformação viu a sua participação na economia brasileira desabar: “Em 1995 ela respondia por 14,5% do PIB, mas em 2022 somente por 9,3%”. Trata-se do fenômeno da desindustrialização, que também ocorreu no ES.
A hipótese de Bacha é a de que o encolhimento da indústria brasileira deve-se, principalmente, ao fato de que “a produtividade relativa da indústria desabou”, entre 1995 e 2022. Ao mesmo tempo, ele mostra que aconteceu o inverso no agronegócio. Ele mostra que em 2023 a produtividade relativa da agricultura em relação à produtividade média da economia já tinha chegado a 94% da média.
Segmentos da economia capixaba: petróleo, comércio e mineração Crédito: Beatriz Seixas/Fernando Madeira/ Tadeu Bianconi-Agência Vale
Ou seja, o que a indústria perdeu em produtividade relativa a agricultura ganhou. Bacha explica essa inversão com a hipótese de que a agricultura mirou o mercado internacional e teve impulsos para a adoção de tecnologias de última geração e “o desenvolvimento de tecnologias nativas”. O nome do jogo é competição, que impulsiona a produtividade.
Já a indústria, conclui Bacha, “continua a mirar o próprio umbigo”, limita-se a vender com preços surreais seus produtos quase que exclusivamente para o mercado interno (...) e sempre com muita proteção contra a entrada de produtos estrangeiros. Com mercado protegido, o impulso da competição e da produtividade é menor.
Neste contexto, o desafio do Espírito Santo é a atração da indústria de transformação e investimentos correlatos que tenham maior agregação de valor, e para isso vai precisar de apoio forte do BNDES, no âmbito do programa “Nova Indústria Brasil” lançado em janeiro pelo governo federal.
Mãos à obra. 2032, vamos dizer assim, é “amanhã”.
O ES precisa criar condições regionais, nacionais e internacionais para evitar a chamada armadilha do baixo crescimento. Buscar a articulação de investimentos com capitais regionais, nacionais e internacionais. Sempre com o foco em inovação e produtividade.
Antônio Carlos Medeiros
É pós-doutor em Ciência Política pela The London School of Economics and Political Science. Neste espaço, aos sábados, traz reflexões sobre a política e a economia e aponta os possíveis caminhos para avanços possíveis nessas áreas