Já se constata que a
guerra na Ucrânia mudará o desenho da geopolítica mundial e o concerto das nações. Na nova ordem mundial em processo de gestação, está clara a disputa pela hegemonia, principalmente entre a
China e os
Estados Unidos. Essa disputa, é claro, terá repercussões na inserção do
Brasil na nova ordem. Esse já é um desafio colocado para o próximo presidente do Brasil. No curto prazo, já agora em 2022, também está colocado o efeito econômico da guerra no país, começando com a escalada da inflação e com o crescimento previsto da ordem de apenas 0,5%.
2022 já está contratado. 2023 também. É uma virada na conjuntura, que acentua a importância histórica das
eleições presidenciais e gerais no Brasil. Deverão ser as mais importantes desde 1989. Desconfiados, descrentes e com déficit de esperança, os brasileiros enxergam, mais uma vez, que o futuro não chegou para o “país do futuro”. Mas as pesquisas mostram que eles torcem para que as eleições venham a significar a saída do fundo do poço, com uma nova agenda restauradora do crescimento, do emprego e da estabilidade política. O espírito da época, em contexto negativo de rejeição à política e aos políticos, é da reversão das expectativas.
O próximo presidente –
Bolsonaro,
Lula ou um candidato da terceira via -, poderá perder força e poder muito cedo se não anunciar os termos de uma agenda de mudanças, já a partir da sua diplomação em 2022. Será fundamental um choque de confiança à sociedade e ao mercado.
Já a partir daí, antes da posse, o presidente eleito vai precisar usar a força da sua legitimidade, advinda das ruas, para enumerar as medidas que enviará para aprovação no
Congresso Nacional depois da posse, provocando na partida uma reversão de expectativas. Ainda mais se não houver o tradicional reconhecimento, pelo(s) perdedor(es), da vitória do novo eleito – seja no primeiro ou, o que é mais provável, seja no segundo turno.
Esse gesto inicial será crucial para construir capital simbólico, capital social e capital político para a garantia da governabilidade. Sem o ímpeto por uma agenda de mudanças, respaldado pelas urnas e articulado com o Congresso Nacional, com noção acurada de “timing político”, o novo presidente poderá perder, na partida, condições de governar o país.
Provavelmente eleito com minoria dos votos dos brasileiros, ao mesmo tempo em que o Congresso poderá ter baixa taxa de renovação e forte presença do Centrão, o presidente terá, na partida, propensão à baixa legitimidade. Vai ter que conviver com um parlamentarismo branco. Isso tudo sem ter a maioria da sociedade ao seu lado e diante de um quadro de polarização e de politização do Judiciário. Com fragilidade do sistema de pesos e contrapesos entre os três poderes da República: Executivo, Legislativo e Judiciário.
Sem a implementação gradual, consistente e sincronizada de uma agenda pactuada de reformas constitucionais e, principalmente, infraconstitucionais – incluindo a desconstitucionalização de temas de políticas públicas, inclusive de gestão econômica -, o Brasil poderá aprofundar um quadro já estrutural de crise política, crise econômica e anomia social. O fantasma de uma crise de Estado.
É preciso sair dessa armadilha, fortalecida pelos efeitos da guerra da Ucrânia na economia e nas condições de vida dos brasileiros. Desde já, é preciso que as candidaturas apontem um rumo para o Brasil. O brasileiro quer rumo, para além do bolso, do emprego, da renda, dos serviços de saúde, segurança, educação e infraestrutura. Precisa voltar a acreditar no Brasil, como projeto de nação e lugar para viver.
Qual candidatura terá condições de amealhar e aglutinar capital simbólico, capital social e capital político para apontar o rumo da estabilidade econômica, da estabilidade política e da (re)inclusão social, reconstituindo laços de confiança entre a sociedade e o poder político?
Com 2022 já contratado, há que se criar consenso e condições políticas para recontratar 2023.