O mantra da nova política, grito de guerra em 2018, está fenecendo nestas
eleições municipais. Está (quase) tudo como dantes no quartel de Abrantes. A narrativa da nova política está na gaveta. O eleitor, embora muito descrente da política, já não é mais mobilizado pelo discurso da antipolítica. Ironias da vida como ela é.
Esta é uma das marcas já visíveis destas eleições até aqui. País sem marca cultural de rupturas históricas, o Brasil parece mais uma vez representar o aforismo de Gramsci: “o velho está morrendo e o novo ainda não pode nascer”. Os sinais estão em toda parte.
Do lado do eleitor, a descrença e a
pandemia apagam a faísca das grandes narrativas e das palavras de ordem. O que os tem feito prestar alguma atenção é a demonstração de capacidade de gestão para entregar os serviços. É forte, nos eleitores, a velha imagem de “são todos farinha do mesmo saco”. Do lado dos candidatos a vereador e a prefeito, o fim das coligações proporcionais, a cláusula de barreira e o novo formato do financiamento eleitoral causaram migrações frenéticas de vereadores e prefeitos para os partidos com maiores recursos. A luta dos candidatos pela sobrevivência fortaleceu os partidos mais fisiológicos. Nova política?
Junto com uma política eleitoral de corte fisiológico e clientelista, vem uma movimentação partidária de fusões, que vai diminuir a fragmentação político-partidária. Entretanto, sem mexer na legislação partidária, oxigenar os partidos e conter as oligarquias partidárias que controlam os milionários fundos partidário e eleitoral, o fisiologismo e o império das dinastias familiares vão continuar a barrar avanços de novas lideranças nascidas nos movimentos cívicos. Ainda, sem fazer a reforma do sistema eleitoral, na direção do sistema distrital misto, o custo das eleições continuará de tamanho industrial e a representatividade democrática continuará muito frágil.
Outra marca dessas eleições é a velha divisão das esquerdas. Em algumas cidades, o campo progressista encena uma autofagia, como em Recife. Em outras, como no Rio de Janeiro, a esquerda deve ficar de fora do segundo turno. Brigando entre si, apesar dos
sinais de aproximação de Ciro Gomes e de Lula, o campo político das esquerdas mostra-se desnorteado e movido por “hegemonismo” e fisiologismo. Este fisiologismo está em toda parte. Em
Vitória, por exemplo, levou o Cidadania de Roberto Freire e
Luciano Rezende a aliar-se ao PSL de Luciano Bivar e Alexandre Quintino. Há salada de frutas partidárias para todos os gostos. Nova política?
Enquanto isto, uma herança de penúria financeira e crise fiscal aguarda os futuros prefeitos. A grande maioria. Ouve-se alguém mencionar esse cenário? Nova política?