O seu último livro (“Liderança”) é uma aula magna sobre geopolítica e liderança. Tomo a liberdade de sugerir essa leitura aos senhores pré-candidatos às eleições municipais de 2024 no
Espírito Santo. Todos eles já estão na estrada das articulações políticas e da miragem dos votos.
Sobre Kissinger, José Casado, da Veja, escreveu um belo texto que serve de referência como obituário: “Kissinger viu na Copa o mapa-múndi dos jogos vorazes da política”.
Casado lembra que Kissinger tinha um pressuposto sobre o exercício da liderança. “Defina objetivos capazes de agregar as pessoas (...) descubra meios, descritíveis, de alcançar esses objetivos”.
Diz Casado que o futebol, achava Kissinger, era caso exemplar de exercício de liderança, pragmatismo e poder – não necessariamente nessa ordem. “Raríssimos, aos seus olhos de torcedor, reuniam todas essas virtudes”.
Ou seja, ele sublinha que Kissinger viu na Copa do Mundo o mapa-múndi dos jogos vorazes da política. “Nessa disputa, achava, é possível distinguir o caráter político de cada país”. Em 1986, Kissinger escreveu que o futebol “é jogo muito tático e em sua complexidade se converte em fascinante reflexo das atitudes nacionais”.
O jogo tático requer criatividade. Kissinger, citado por Casado, provocou: “Por que nenhuma equipe de país comunista (exceto a Hungria, em 1954) chegou às semifinais ou à final da Copa?”. Respondeu: “Planejamento excessivo, estereotipado, destrói a criatividade indispensável para o futebol eficaz”.
Bingo. Faço essa resenha para provocar os senhores pré-candidatos a prefeito em 2024 no Estado. Como buscar o futebol eficaz?
Por que essa provocação? Porque nada menos que 49 municípios do ES, do total de 78 municípios, poderão ter candidatos à reeleição. Portanto, são gestores que já têm experiência das dificuldades e das responsabilidades. E sabem o que vem pela frente.
As despesas de pessoal avançaram em 2022 em grande parte dos municípios. Na média nacional, avançaram 8,3% de 2021 para 2022. Também na média nacional, as despesas de custeio, deram um salto em 2022: 18,3% em termos reais. A maior taxa desde 2002. E houve uma piora dos indicadores de equilíbrio fiscal, segundo a Frente Nacional de Prefeitos: na média, as despesas correntes cresceram 12,5%, contra 9,1% das receitas correntes.
Tudo somado, a maioria dos municípios capixabas apresenta situação fiscal que requer cuidados especiais. Não há ambiente fiscal para promesseiros. Ainda mais porque as pesquisas mostram que os eleitores esperam bons gestores e estão cansados de guerras ideológicas.
Neste contexto, podem ser inspiradoras as concepções e os exemplos de Kissinger sobre as qualidades das lideranças eficazes.