Sem mudanças de paradigmas, a transição para a economia verde da “era verde” será comprometida. No horizonte de 2030 e no horizonte de 2050. Problemas estruturais já se apresentam no processo de transição. Por isso a revolução no sistema de energia requer abrangência global. Com sincronia da equação da demanda com a equação da oferta no processo de substituição gradual das fontes fósseis para as fontes renováveis. Requer, também, a ação do Estado para catalisar investimentos na
economia verde.
Às vésperas da cúpula de Roma (no próximo fim de semana) dos líderes das maiores economias desenvolvidas e emergentes que integram o G-20, seguida pela Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas (COP26) em Glasgow, as análises apontam para a volatilidade e desequilíbrio da oferta e demanda de energia. Com riscos de desabastecimento e crise política. Basta imaginar a reação das pessoas se ficarem sem refrigeração, aquecimento e transporte. Ainda, as análises apontam que a equação fiscalista e neoliberal do chamado Consenso de Washington não vai dar conta de catalisar o volume de investimentos apenas com investimentos privados. Será necessário revitalizar o papel econômico do Estado.
Os gastos com energia renovável, para que a revolução seja viável, precisariam passar de US$ 1 trilhão para US$ 4 trilhões ao ano. Vem daí a importância do Estado para impulsionar investimentos e coordenar uma estrutura política global de cooperação. Os gastos com renováveis precisam aumentar muito, enquanto a oferta e a demanda de fósseis precisam ser reduzidas em conjunto. Sem a sincronização da oferta e da demanda, a volatilidade produz inflação e desabastecimento. E compromete a transição. Hoje, os estoques de petróleo, gás e carvão estão baixos. Com altas de preços.
Martin Wolf relembra que as mudanças climáticas são provocadas pelos humanos e que agora o planeta tem necessidade de uma revolução verde para a sua sobrevivência. É tarefa para uma geração. Vem daí o marco de 2030 a 2050 para a transição. Wolf enfatiza o imperativo de coordenar investimentos públicos e privados, com forte papel do Estado. Os investimentos são colossais. Acima de tudo, ele vislumbra a imanência de sérios problemas políticos: se der errado, a revolução verde tem risco de forte reação política negativa das pessoas. A fúria do desabastecimento e/ou dos eventos climáticos extremos.
Mariana Mazzucato, que participa das reuniões para a Cúpula de Roma, defende a inversão da equação do Consenso de Washington. Para ela, o fiscalismo e o neoliberalismo podem estar sendo substituídos pela alternativa do Consenso da Cornualha, no encontro do G7 em junho. Lá, os líderes externaram uma nova equação: a revitalização do papel econômico do Estado; a opção pela demanda social da reversão das desigualdades; a solidariedade internacional; e a governança global da transição para a economia verde.
Depois da Cornualha, agora Roma. Em seguida Glasgow. E o Brasil? Vai ficar na contramão da agenda climática global? Vamos ver.