Todos nós sabemos da
passagem do furacão Madonna pela praia de Copacabana. Reuniu um público estimado em 1,6 milhão na praia mais famosa do Brasil. Um efeito enorme para o turismo no Rio de Janeiro e no país. Gente de muitos estados brasileiros, da América do Sul e de outros países.
O show é um verdadeiro atestado do potencial da cadeia produtiva da cultura e do turismo na atividade econômica, com geração de renda e trabalho.
Movimentou quase R$ 300 milhões na economia carioca, com um investimento de R$ 60 milhões – R$ 10 milhões da Prefeitura do Rio, R$ 10 milhões do governo estadual e R$ 40 milhões do Itaú e da Heineken. Renderá R$ 60,9 milhões de ISS recolhidos pelas áreas relacionadas ao evento à Prefeitura do Rio.
Recorro a esse exemplo para chamar a nossa atenção para a nossa falta de audácia na gestão do turismo no Espírito Santo. Refiro-me aos governos do Estado e dos municípios. Refiro-me ao chamado “trade turístico”, ou seja, as empresas privadas que lidam com turismo. E refiro-me a nossa cultura vira-lata quando se fala do turismo: o melhor está sempre “fora” do Estado ou do país.
A falta de audácia é histórica, não é de agora. É também histórico o problema de governança no âmbito do trade turístico. As empresas têm dificuldade de agir em conjunto. Têm cultura dependente da ação do poder público, além da falta de audácia. O que significa que o chamado “espírito animal” de Schumpeter (a propensão ao risco e ao investimento) passa ao largo. Forma-se um círculo vicioso.
Otimista, o secretário disse que “é possível afirmar que 2024 é o ano para o turismo do nosso Espírito Santo”. E lembrou que o turismo emprega 196 mil pessoas e responde por 7% do PIB estadual, gerando ocupação, renda e oportunidade. Mas ainda é pouco.
Portanto, devemos reconhecer que ainda estamos muito lentos e frágeis para superar o desafio. Só na cidade do Rio de Janeiro, a indústria criativa tem mais de 4 mil empresas e 80 mil trabalhadores. 93,5% são micro e pequenos empreendimentos. O réveillon movimentou R$ 3 bilhões. O carnaval R$ 5 bilhões. E assim por diante.
Aqui, é preciso fazer muito mais. Parodiando José Antonio Buffon, em artigo sobre inovação publicado em 2021, precisamos de mudança no modelo mental de muitos dos nossos gestores púbicos. Muitos ainda são, sublinhava Buffon, prisioneiros do “investimento tangível, material, em detrimento do intangível, do imaterial (...) são gestores viciados em obras...”.
Buffon fez uma simulação, em 2021, à guisa de exemplo. “Vamos convencionar que 1 km de asfalto custe R$ 3,0 milhões. Todo município, por menor que seja, tem recursos para construir 4 km de asfalto em 4 anos – 1 km a cada ano”. E arremata: “multiplicando-se tudo por 4 anos e por 78 municípios teremos R$ 936 milhões alocados”.
Na época, ele se referia a investir em inovação. Mas o exemplo vale também para o turismo.
O desafio para aumentar o peso do turismo no PIB estadual até 2032 é gigantesco. Requer mudança no modelo mental de muitos gestores públicos. Para além do “obrismo”.
Mas, evidentemente, requer também mudança do modelo mental do empresariado da área do turismo - e da sociedade. O empresariado precisa despertar o espírito animal e melhorar a governança. E nós, sociedade, precisamos superar o complexo de vira-lata na área.
É uma opção estratégica. Requer, outra vez, audácia, governança e comunicação. E muito investimento. Pensar grande e fora da caixa. Desafio de Estado e sociedade.
Quem vai liderar? No meio tempo, tomara que o secretário Lemos esteja certo sobre 2024.