Há cento e dez anos, Jerônimo Monteiro inaugurou o sistema integrado de transporte bonde-barco ligando Vitória a Paul, no município de Vila Velha. O sistema faz parte da nostalgia de tantos que o celebram como parte da história do que mais tarde veio a se constituir na Região Metropolitana da Grande Vitória.
A singularidade e eficiência do sistema foi substituído pelo concorrente transporte sobre pneus, ainda que a custos ambientais e financeiros bem mais elevados. O sistema teve um breve retorno quando reimplantado na década de 1970 diante do caos que era a circulação entre Vitória e o continente Sul, até 1979 contando apenas com a ligação através da Ponte Florentino Avidos.
Apesar de bem recebido o projeto de retorno do aquaviário, em sua nova versão com terminais na Prainha de Vila Velha, Paul e Porto Santana, no continente; e Rodoviária e Praça do Papa, em Vitória, falhou ao desconsiderar alguns fatores básicos. Dentre eles a falta de integração com o sistema de ônibus existente, tanto do ponto de vista operacional quanto tarifário.
Diante da falta de vontade política de enfrentar essa falta de integração ônibus-barca-ônibus, todas as tentativas de manter e/ou recuperar o uso da Baía de Vitória como via de transporte público de passageiro foram frustradas. O resultado foi que o aquaviário acabou entrando em colapso menos de vinte anos após a primeira tentativa de sua reativação.
A promessa de campanha do candidato ao governo Casagrande, em 2018, de que retomaria o projeto caso vencesse, certamente despertou esperanças de que finalmente o que parece óbvio se transformaria em realidade.
A promessa que começa a tomar forma com obras de construção de terminais para lanchas em Vila Velha, Vitória e Cariacica; com anúncio de embarcações mais adequadas do que as utilizadas anteriormente; e com a ênfase de que a tarifa será integrada com o sistema Transcol.
Boas novas e que assim seja. A questão que ainda continua sem notícias e sem projeto é como os terminais de Vila Velha e de Porto de Santana serão alimentados pelas linhas do Transcol. O acesso a esses terminais por quem utiliza ônibus nos municípios de Vila Velha e Cariacica ainda está por ser estudado e só será contemplado após a licitação para saber quem vai operar as barcas, segundo informações da Secretaria de Mobilidade e Infraestrutura.
Para um projeto que vem sendo contemplado desde a primeira gestão do governador Casagrande e que só no último ano de seu segundo mandato deslancha (sem qualquer intenção de trocadilho), esta falha se enquadra nos alertas feitos pelo editorial deste jornal em 13 de maio último.
Sem integração pensada e articulada com o sistema Transcol e com as empresas que o operam, a retomada do aquaviário está fadada a se resumir ao atendimento de quem pode chegar aos terminais no continente sul a pé, de bicicleta, carro ou utilizando as linhas de ônibus que hoje passam pela Prainha e por Porto de Santana. E isso é pouco, muito pouco.
Pelo tempo que as gestões Casagrande falam da prioridade para o aquaviário e pelo muito que o sistema pode melhorar as condições de circulação urbana de tantos que optam ou dependem de transporte público, o que está anunciado é, no máximo, melhor do que nada. Mas as pessoas e a cidade merecem mais, muito mais.