As tecnologias da informação e das comunicações (TICs), ao serem incorporadas a processos e produtos desde a segunda metade do século, provocaram alterações em todos os campos da vida econômica, social, política e cultural em escala mundial. Previsões feitas no passado sobre seus impactos se mostraram ser subestimadas com o decorrer do tempo. De forma semelhante, o que se desejar especular sobre seus desdobramentos daqui para frente provavelmente será avaliado como equívoco no futuro.
Entre outras características do paradigma técnico-econômico-institucional das TICs, estão a velocidade própria em que circula todo tipo de informação e o fato da circulação ser feita pessoa a pessoa. Sons e imagens são transportados pelo mundo em tempo real sem a utilização dos meios utilizados para pessoas e mercadorias. E o fazem sem a necessidade de endereço físico como ocorria com cartas e telefonemas até pouco tempo atrás.
A velocidade e intensidade como essas características têm sido incorporadas em todo tipo de interação econômica, social, cultural e política exigem dois tipos de atenção.
Por um lado, há que se contemplar mecanismos que assegurem a todas as pessoas acesso a preços compatíveis de aparelhos básicos, como celular e computador, bem como serviços de internet de qualidade.
Restringir esse acesso a poucos tem peso maior no processo de exclusão social do que o acontecido no passado com informações e entretenimento impressas, ou quando elas chegavam via rádio e televisão. Conforme ficou impossível ser desconsiderado com os efeitos da pandemia da Covid-19, deixar de ter acesso a informações e conhecimento representa restrições para o cuidar de si e dos outros. Seja o cuidado com a saúde, com a educação, com a questão econômica ou política.
À pauta pela inclusão social, dessa maneira, soma-se alimentação, vestuário, moradia, saúde, educação, entre outros, a necessidade de inclusão digital universal. O custo disso? Qualquer financista de plantão pode constatar que é mais baixo em países como o Brasil, daquilo que é drenado dos cofres públicos pelo pagamento do serviço da dívida em poucos anos; ou o que Estados e municípios concedem de incentivos e postergações fiscais.
Por outro lado, é preciso ampliar o debate público sobre desdobramentos psicossociais da difusão acelerada das TICs. Dentre esses, o monitoramento de pessoas e o estimulo permanente à conectividade, que gera cada vez mais dependência das redes e mídias sociais. O resultado mais imediato desses desdobramentos é o processo de ganhos financeiros e de vantagens políticas que ocorrem a partir do entendimento dos padrões de comportamento expresso na navegação de cada pessoa pelas redes.
O mapeamento da quantidade de interações, do tempo de conexão, das ideias e pontos de vistas e dos interesses por bens e serviços resulta, por um lado, em ganhos trilionários para corporações que o conduzem. Por outro, sofisticam cada vez mais os meios de manterem quem transita nas redes ainda mais viciado e dependente.
Mecanismos de inteligência artificial tornam cada vez mais sofisticadas a percepção de indivíduos melhor do que eles mesmos. A chamada aprendizagem profunda raqueia suas mentes e assim gera mecanismos para mantê-los conectados o tempo todo, independentemente de convívio social real e de paisagens que os possam cercar no mundo fora das telas.
Os desdobramentos financeiros e políticos dessa capacidade de percepção de pessoas para além do que elas próprias conseguem fazer transformaram a indústria da inteligência artificial, do "big data" e das ferramentas de garimpagem de informações no coração do paradigma das TICs. Por isso, são consideradas as sucessoras exponencializadas das torres de petróleo no paradigma fordista.
E mais, a inteligência artificial associada às fronteiras da neurociência tornam possível o raqueamento genético, de sonhos, de dispositivos e da memória das pessoas.
Vistas por esses dois prismas - o da exclusão digital que implica no círculo vicioso da marginalização social, política e econômica da maioria da população no Brasil e no mundo; e o da possibilidade do raqueamento por poucas corporações de tudo o que pessoas e pensam e fazem -, os desafios do presente são ímpares na história da humanidade. Em primeiro lugar, porque as instâncias de decisão que podem enfrentar cada uma dessas questões são distintas.
A inclusão digital pode ser feita em nível local com governos municipais e estaduais exercendo o papel de mobilizar forças sociais e apoiá-las em projetos que permitam o acesso de todas as pessoas - independentemente de idade, gênero e condições financeiras - a um mundo que pode ser descortinado com os instrumentos oferecidos pelas TICs.
Em segundo lugar, porque o enfrentamento a tudo de pernicioso nas possibilidades de raqueamentos por parte de alguns poucos só pode ser feito a partir de uma grande articulação política em nível mundial. Difícil nesse momento de polarizações que transformam o diálogo construtivo em uma utopia para quem deseja um outro normal. Difícil, mas nem por isso impossível.
Como todo longo percurso, o importante é o primeiro passo. Que ele seja dado no sentido da inclusão digital por quem possa fazê-lo - municípios, Estados e suas articulações sociais. Inclusão indesejada a forças reacionárias e retrógradas que sempre se colocam contra qualquer avanço social que retire delas o privilégio de se sentirem "superiores".