Sair
Assine
Entrar

Entre para receber conteúdo exclusivo.
ou
Crie sua conta A Gazeta
Recuperar senha

Preencha o campo abaixo com seu email.

Modernidade

Atenção para as tecnologias da informação e das comunicações

Mecanismos de inteligência artificial tornam cada vez mais sofisticada a percepção de indivíduos, melhor do que a deles mesmos

Publicado em 24 de Setembro de 2020 às 05:00

Públicado em 

24 set 2020 às 05:00
Arlindo Villaschi

Colunista

Arlindo Villaschi

arlindo@villaschi.pro.br

Tecnologias da informação
A velocidade como as informações têm sido incorporadas em todo tipo de interação exige atenção Crédito: Pixabay
As tecnologias da informação e das comunicações (TICs), ao serem incorporadas a processos e produtos desde a segunda metade do século, provocaram alterações em todos os campos da vida econômica, social, política e cultural em escala mundial. Previsões feitas no passado sobre seus impactos se mostraram ser subestimadas com o decorrer do tempo. De forma semelhante, o que se desejar especular sobre seus desdobramentos daqui para frente provavelmente será avaliado como equívoco no futuro.
Entre outras características do paradigma técnico-econômico-institucional das TICs, estão a velocidade própria em que circula todo tipo de informação e o fato da circulação ser feita pessoa a pessoa. Sons e imagens são transportados pelo mundo em tempo real sem a utilização dos meios utilizados para pessoas e mercadorias. E o fazem sem a necessidade de endereço físico como ocorria com cartas e telefonemas até pouco tempo atrás.
A velocidade e intensidade como essas características têm sido incorporadas em todo tipo de interação econômica, social, cultural e política exigem dois tipos de atenção.
Por um lado, há que se contemplar mecanismos que assegurem a todas as pessoas acesso a preços compatíveis de aparelhos básicos, como celular e computador, bem como serviços de internet de qualidade.
Restringir esse acesso a poucos tem peso maior no processo de exclusão social do que o acontecido no passado com informações e entretenimento impressas, ou quando elas chegavam via rádio e televisão. Conforme ficou impossível ser desconsiderado com os efeitos da pandemia da Covid-19, deixar de ter acesso a informações e conhecimento representa restrições para o cuidar de si e dos outros. Seja o cuidado com a saúde, com a educação, com a questão econômica ou política.
À pauta pela inclusão social, dessa maneira, soma-se alimentação, vestuário, moradia, saúde, educação, entre outros, a necessidade de inclusão digital universal. O custo disso? Qualquer financista de plantão pode constatar que é mais baixo em países como o Brasil, daquilo que é drenado dos cofres públicos pelo pagamento do serviço da dívida em poucos anos; ou o que Estados e municípios concedem de incentivos e postergações fiscais.
Por outro lado, é preciso ampliar o debate público sobre desdobramentos psicossociais da difusão acelerada das TICs. Dentre esses, o monitoramento de pessoas e o estimulo permanente à conectividade, que gera cada vez mais dependência das redes e mídias sociais. O resultado mais imediato desses desdobramentos é o processo de ganhos financeiros e de vantagens políticas que ocorrem a partir do entendimento dos padrões de comportamento expresso na navegação de cada pessoa pelas redes.
O mapeamento da quantidade de interações, do tempo de conexão, das ideias e pontos de vistas e dos interesses por bens e serviços resulta, por um lado, em ganhos trilionários para corporações que o conduzem. Por outro, sofisticam cada vez mais os meios de manterem quem transita nas redes ainda mais viciado e dependente.
Mecanismos de inteligência artificial tornam cada vez mais sofisticadas a percepção de indivíduos melhor do que eles mesmos. A chamada aprendizagem profunda raqueia suas mentes e assim gera mecanismos para mantê-los conectados o tempo todo, independentemente de convívio social real e de paisagens que os possam cercar no mundo fora das telas.
Os desdobramentos financeiros e políticos dessa capacidade de percepção de pessoas para além do que elas próprias conseguem fazer transformaram a indústria da inteligência artificial, do "big data" e das ferramentas de garimpagem de informações no coração do paradigma das TICs. Por isso, são consideradas as sucessoras exponencializadas das torres de petróleo no paradigma fordista.
E mais, a inteligência artificial associada às fronteiras da neurociência tornam possível o raqueamento genético, de sonhos, de dispositivos e da memória das pessoas.
Vistas por esses dois prismas - o da exclusão digital que implica no círculo vicioso da marginalização social, política e econômica da maioria da população no Brasil e no mundo; e o da possibilidade do raqueamento por poucas corporações de tudo o que pessoas e pensam e fazem -, os desafios do presente são ímpares na história da humanidade. Em primeiro lugar, porque as instâncias de decisão que podem enfrentar cada uma dessas questões são distintas.
A inclusão digital pode ser feita em nível local com governos municipais e estaduais exercendo o papel de mobilizar forças sociais e apoiá-las em projetos que permitam o acesso de todas as pessoas - independentemente de idade, gênero e condições financeiras - a um mundo que pode ser descortinado com os instrumentos oferecidos pelas TICs.
Em segundo lugar, porque o enfrentamento a tudo de pernicioso nas possibilidades de raqueamentos por parte de alguns poucos só pode ser feito a partir de uma grande articulação política em nível mundial. Difícil nesse momento de polarizações que transformam o diálogo construtivo em uma utopia para quem deseja um outro normal. Difícil, mas nem por isso impossível.
Como todo longo percurso, o importante é o primeiro passo. Que ele seja dado no sentido da inclusão digital por quem possa fazê-lo - municípios, Estados e suas articulações sociais. Inclusão indesejada a forças reacionárias e retrógradas que sempre se colocam contra qualquer avanço social que retire delas o privilégio de se sentirem "superiores".

Arlindo Villaschi

É professor Ufes. Um olhar humanizado sobre a economia e sua relação com os avanços sociais são a linha principal deste espaço.

Viu algum erro?
Fale com a redação
Informar erro!

Notou alguma informação incorreta no conteúdo de A Gazeta? Nos ajude a corrigir o mais rapido possível! Clique no botão ao lado e envie sua mensagem

Fale com a gente

Envie sua sugestão, comentário ou crítica diretamente aos editores de A Gazeta

A Gazeta integra o

Saiba mais

Recomendado para você

Dois acidentes deixam 5 feridos em Itapemirim e Rio Novo do Sul
Dois acidentes deixam cinco feridos no Sul do ES em menos de 12 horas
Polícia investiga atropelamento de cadela em Santa Maria de Jetibá
Vídeo mostra caminhonete atropelando cadela no ES; polícia investiga
Carteira de trabalho digital.
Carteira assinada segue valiosa, mas liberdade de escolha também passou a ser

© 1996 - 2024 A Gazeta. Todos os direitos reservados