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Inteligência artificial

Avanços científicos e tecnológicos: é preciso conversar sobre controle social

Questões éticas sobre esses avanços e sobre como eles são financiados devem ser postos em termos que permitam uma compreensão maior por parte de quem pouco entende dos jargões de cientistas

Publicado em 06 de Abril de 2023 às 00:10

Públicado em 

06 abr 2023 às 00:10
Arlindo Villaschi

Colunista

Arlindo Villaschi

arlindo@villaschi.pro.br

A divulgação da nova frente de avanços da inteligência artificial (IA) incorporada no ChatGPT ganhou novos contornos no debate público nas últimas semanas. Por um lado o senhor feudal tecnológico Bill Gates - que incorporou à sua Meta a OpenAI, empresa à frente da inovação – publicou nota técnica colocando o novo sistema como a última maravilha tecnológica a serviço da humanidade.
Por outro, Sam Altman, diretor executivo da OpenAI, se disse assustado com riscos possíveis dos avanços na tecnologia e alertou que a humanidade deve estar preparada para as consequências negativas da IA, entre as quais menciona ataques cibernéticos e desinformação.
E ainda na última semana de março centenas de especialistas e empresários, inclusive o também senhor feudal tecnológico Elon Musk, assinaram pedido de suspenção por seis meses nas pesquisas sobre IAs mais potentes que o GPT-4. O pedido alerta para os profundos riscos para a humanidade; solicita a criação de órgãos reguladores; e responsabilização por danos causados pela IA.
Para além do necessário debate aberto e plural sobre novas fronteiras científicas e tecnológicas, das quais as envolvendo IA são as que mais exposição vêm tendo nos meios de comunicação, vale uma reflexão ampliada sobre ciência, tecnologia e participação da sociedade.
Todo avanço científico e tecnológico é fruto de um processo social que vai muito além da genialidade de uma pessoa. Nominar uma pessoa como o inventor por traz de um produto ou um processo simplifica a história de novos conhecimentos nos campos da ciência, da tecnologia e da inovação e cria uma áura de mérito individual que esconde da maioria da população interações de pessoas e saberes por trás dos avanços.
Nas últimas décadas essa questão ficou ainda mais nebulosa na medida em que os progressos científicos e tecnológicos passaram a ser creditados a empresas. Seja no caso das vacinas disponibilizadas para o combate à Covid 19, seja naqueles ligados às profundas mudanças provocadas pelas tecnologias dos conhecimentos e dos aprendizados o que é enaltecido junto à sociedade são nomes de empresas ou a de quem as criou.
Inteligência artificial: o alerta de mil especialistas sobre 'risco para a humanidade'  Crédito: Getty Images
Esse artifício de propaganda retira da discussão tanto a complexidade do processo de avanços no conhecimento científico e tecnológico quanto o uso de partes substanciais de recursos públicos envolvidos no financiamento deles. Como a ideologia dominante endeusa o mercado e os feitos de indivíduos (de pessoas ou empresas), à sociedade cabe muito pouco opinar.
As respostas a questionamentos de instituições ligadas a governos ou à sociedade civil quanto aos riscos do controle por parte de poucos de parte considerável do progresso científico e tecnológico são simplistas e geralmente resumem a breves notícias veiculadas nos meios de comunicação de massa. Na maioria das vezes são apresentadas como maravilhas sob a forma de novos processos e produtos que assegurarão futuro melhor para a humanidade como um todo.
Simplificações sobre questões complexas por trás de avanços científicos e tecnológicos e de como eles usam recursos públicos precisam ser analisadas criticamente com a participação da sociedade. Questões éticas sobre esses avanços e sobre como eles são financiados devem ser postos em termos que permitam uma compreensão maior por parte de quem pouco entende dos jargões de cientistas.
Afinal, avanços científicos e tecnológicos são coisas sérias demais para serem deixadas por conta de senhores feudais tecnológicos, de seus asseclas em laboratórios blindados como se isentos fossem e de instituições que deveriam ser públicas mas que cada vez mais apenas dizem amém aos interesses financeiros por trás desses avanços.

Arlindo Villaschi

É professor Ufes. Um olhar humanizado sobre a economia e sua relação com os avanços sociais são a linha principal deste espaço.

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