A forma acrítica como muitas vezes palavras são usadas recomenda como boa prática em qualquer debate que se recupere o sentido que se quer dar a expressões pronunciadas ou escritas. Assim, por exemplo, Cais das Artes significa, nas palavras do ex-governador Paulo Hartung, em cuja administração a obra foi concebida e começou a ser construída:
“...o Cais das Artes é pensado como espaço de troca dos capixabas com o mundo. Há algumas décadas o Espírito Santo ansiava por novos edifícios para a cultura que pudessem abrigar a complexidade dos sentidos da arte na sociedade contemporânea. Há força expressiva em nosso Estado que necessita desses equipamentos. O Espírito Santo também tem almejado receber grandes exposições , concertos sinfônicos, óperas, peças teatrais e apresentações musicais que demandam salas tecnicamente mais adequadas e amplas para abrigar o novo público capixaba. No mundo atual, os museus e os teatros são os principais emblemas das cidades que pretendem ter papel global. A economia do Espírito Santo e o progresso de Vitória indicam que nossas aspirações devem ser mais do que um lugar colateral na cena brasileira. (...) O Cais simboliza o lugar de confiança e esperança dos capixabas.”
Segundo um outro Paulo, o Mendes da Rocha, arquiteto que concebeu e projetou o Cais das artes:
“Constituído por um museu e um teatro equipados para receber eventos artísticos de grande porte, o conjunto arquitetônico projetado para o Cais das Artes, em Vitória, (...) procura equipar a cidade para receber espetáculos artísticos importantes, qualificando-a como uma sede cultural com presença nacional.”
Com o uso desse espaço concebido segundo aspirações sociais e econômicas como as que emergem dos dois Paulos, o político desejoso de construir um lugar de confiança e esperança dos capixabas, e o arquiteto que aspira qualificar Vitória como uma sede cultural com presença nacional, cabe indagar: cabem ali startups?
Segundo o Sebrae, startup “é uma empresa inovadora com custos de manutenção muito baixos, mas que consegue crescer rapidamente e gerar lucros cada vez maiores”. Como o modelo de negócio de startups está voltado para a geração de lucros crescentes, fica claro que existem vários lugares onde elas podem - e é desejável do ponto de vista econômico - se instalar na cidade, mas certamente uma exceção clara e inequívoca é o Cais das Artes.
O governo do Estado também busca justificar uma parceria com aplicadores financeiros como forma de terminar a obra, alegando que ali cabem empreendimentos ligados à economia criativa. Esse setor se quer diferenciar de ramos tradicionais porque está relacionado à produção, distribuição e criação bens e serviços criativos.
Como criatividade é conceito amplo, geral e irrestrito, é bom lembrar que as áreas que mais empregam dentro da economia criativa no Brasil são arquitetura, engenharia, design, moda e publicidade. Esses são os segmentos objeto de ocupação do Cais das Artes a partir da parceria objeto de declarada negociação entre o governo do Estado e aplicadores financeiros?
Indagações como as aqui feitas e outras que circulam a respeito do tema Cais das Artes/startups/economia criativa são pertinentes para que o debate sobre o projeto, as obras e o uso do Cais das Arte seja ampliado. Como o governador Casagrande se comprometeu a terminá-lo como projetado – compromisso público com a presença do arquiteto Paulo Mendes da Rocha no início de 2020 – qualquer ação diferente disso precisa ser discutida de forma ampliada.
A arte e a cultura conforme entendidas no projeto do Cais das Artes têm caráter de bem público. Como tal devem ser mantidas como de propriedade pública longe de usos voltados para o lucro. Sem qualquer demérito a quem se dedica ao lucro – seja sob o rótulo de startup ou sob a classificação de economia criativa.
Pelo contrário, questionar o uso do que é público para beneficiar financeiramente quem quer que seja é acima de tudo uma atitude de respeito a quem já se dedica a atividades intensivas em tecnologia e em criatividade e que há muito as exerce em espaços privados e correndo os riscos inerentes ao jogo de mercado.
Por isso, ao público o que é de todos; ao lucro o que é para o mercado.