A notícia de que o governo estadual contempla a ideia de terceirizar o término das obras do Cais da Artes para grupos interessados em ocupá-lo com empresas intensivas em tecnologia merece ser mais bem discutida. Para começar, sem a falsa dicotomia cultura x tecnologia. Falsa porque esta faz parte daquela; falsa porque ambas são importantes para a sociedade e para a economia. Falsa porque ao governo compete apoiar tanto uma quanto outra em diferentes níveis de comprometimento financeiro.
O Cais das Artes é obra para ancorar projetos culturais que melhor posicionem o Espírito Santo no circuito de formação e circulação de artistas nas mais diversas formas de expressão artística. Foi também pensado para hospedar obras de artes plásticas que além de preservá-las as valorizem através da formação de apreciadores das artes.
Esse entendimento fundamentou a proposta de projeto arquitetônico que foi confiado ao arquiteto Paulo Mendes da Rocha. Para além da sua relevância para as artes, a importância de sua conclusão cresce na medida em que cada vez mais todo o seu entorno – de Bento Ferreira à Praia do Canto - vem sendo objeto de incontida especulação imobiliária. Moradores antigos, novos e futuros dessa região merecem uma área de respiro que responda à quase total falta de equipamentos culturais nela localizados.
Nada mais razoável, portanto, que do governo estadual se demande o cumprimento da promessa feita – na presença do autor do projeto à época ainda entre nós - .por seu mandatário Renato Casagrande em março de 2020. Tudo sob o testemunho de pessoas do governo e de fora dele e muito bem registrado pela imprensa local.
Isso posto, há que se aproveitar a disposição do governo de apoiar o surgimento e a viabilidade de novos empreendimentos intensivos em tecnologia. Para tanto, a administração pública precisa abrir um debate voltado para a construção de uma política industrial com esse objetivo. Política que precisa abranger aspectos científicos, tecnológicos, de inovação; contemplar como mobilizar instituições públicas e interesses privados; levar em consideração como mesclar apoio financeiro, fiscal e incentivos que levem em consideração as especificidades daquilo que se entende como startups.
Entendimento que precisa ir para além de um rótulo genérico que vem sendo apropriado pelos voltados para ganhos especulativos a partir de riscos mínimos assegurados pela alocação de recursos públicos. As startups que interessam à economia e à sociedade - e que por isso devem ter apoio explícito do governo - são aquelas levadas adiante por empreendedores dispostos a transformar em inovação conhecimentos científicos disponíveis e tecnologias disruptivas.
Como as incertezas nessas áreas são grandes, mais do que justificado incentivos governamentais a quem se dispõe correr os riscos maiores de empreendimentos intensivos em tecnologia. Até porque o grau de sucesso é relativamente baixo e sem incentivo diminuem as chances de empreendedores se disporem a arriscar talento, tempo e vontades.
Facilitar o acesso a imóveis a custos e prazos compatíveis com essas incertezas e esses riscos pode ser uma boa iniciativa dos poderes públicos. No caso de Vitória, esse apoio a startups pode ser instrumento positivo para a há muito prometida e cada vez mais necessária valorização da área do Centro da cidade.
A utilização de edificações ali localizadas hoje vazias ou parcialmente desocupadas por startups pode ser um bom começo. Por serem atividades intensivas em conhecimento e que geralmente mobilizam pessoas mais jovens à busca de qualidade de vida, criar incentivos para que elas se localizem na área histórica de Vitória pode ser uma iniciativa ganha-ganha.
Ganha o desenvolvimento da cidade com geração de emprego e renda. Diretamente para pessoas que se dispõem a levar avante projeto inovadores intensivos em tecnologia; indiretamente para inúmeras atividades comerciais já disponíveis no centro e que têm sentido o peso de seu esvaziamento.
A escolha aqui proposta do governo levar adiante a prometida conclusão das obras do Cais das Artes na forma como originalmente concebida e o concomitante apoio à instalação no Centro de Vitória de startups voltadas para o uso de tecnologias disruptivas, também se caracteriza pelo sempre desejado ganha-ganha.
Ganham a cultura e a economia. Ganham a sociedade e a qualidade de vida na Capital, na Grande Vitória, no Espírito Santo. Ganham governos e quem se dedica à artes e a empreendimentos inovadores.