Obra concebida e projetada na primeira década deste século, o Cais das Artes em Vitória tinha tudo para se tornar um marco para novos voos das artes no Espírito Santo. Contou com a competência do curador Paulo Herkenhoff, capixaba, com larga experiência na escolha de acervos e de linhas de atuação em artes plásticas; e com a proposta arquitetônica para a obra de Paulo Mendes da Rocha, igualmente capixaba e um dos ícones da arquitetura modernista brasileira.
Mal apresentada e conversada com a sociedade, além de localizada em uma área de uso eminentemente residencial à época, o projeto passou a ser alvo de críticas mais ou menos veladas tanto por quem se interessa por artes no Estado quanto por moradores da cidade.
Falta de informação que acabou aumentando as críticas quando as obras de construção começaram e o que se via por cima dos tapumes eram dois blocos de concreto em aparente confronto com a vista privilegiada que se tem da Baía de Vitória a partir do entorno de seu terreno.
Sem superar essas críticas, a obra passou a ser contestada ainda mais quando foi paralisada no ponto em que só a parte básica havia sido terminada. Parou a obra, parou por quê? Uma vez mais, diante da falta de informações aumentaram as especulações sobre as razões do que àquela altura era identificado como um "elefante branco".
Na primeira gestão de Casagrande, quando a obra foi paralisada, depois sucedida pela de Paulo Hartung - em cujo primeiro mandato a obra foi pensada, projetada e iniciada - cresceu a expectativa de sua retomada entre os que viam e continuam vendo o Cais das Artes como instrumento de atualização de Vitória enquanto principal centro cultural de uma área que vai além das fronteiras estaduais. Ledo engano e mais argumentos para os que a ela sempre se opuseram.
Na atual administração de Casagrande, novos sinais surgiram em 2019 de que "agora a coisa vai". Foi firmado compromisso público pelo governador de dar continuidade à obra; tudo com pompas e circunstância e com promessa feita na presença de Paulo Mendes da Rocha, à época ainda entre nós.
Um mínimo de vontade política para que a obra realmente vá adiante, seja por sua relevância para as artes no Espírito Santo, seja em respeito ao que nela já foi gasto de dinheiro público, se faz necessário para buscar alternativas. Uma dessas pode ser a busca de parceria onde exista reconhecimento da cultura como pilar social; que esteja disposta a exercer ‘soft power’ na geopolítica mundial; que tenha reconhecida capacidade financeira; e que tenha interesses comerciais no Espírito Santo.
Essa possibilidade de parceira chama-se China, com quem empresas que operam no Estado - como a Vale, a Suzano e a Arcelor Mittal – têm fortes vínculos comerciais. Vínculos que podem ser usados pelo governo do Estado para apresentar uma proposta que vá além do apoio financeiro para concluir a obra e contemple também programas de intercâmbio entre artistas, orquestras, companhias de dança e grupos de artes plásticas.
Se essa parceira parecer muito complicada – apesar do sucesso desse tipo de iniciativa em outros lugares – que alternativas outras sejam procuradas. A única coisa que parece inaceitável é o atual estado de coisas do Cais das Artes pontuado pela inércia e pela falta de imaginação do governo. O movimento cultural capixaba merece mais e melhor.