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Tarifaço

É preciso agradecer a Trump

As atitudes recentes de Trump, se trazem novidades na forma, dada sua falta de um mínimo de pudor, pouca diferença trazem em seu conteúdo

Publicado em 07 de Agosto de 2025 às 04:00

Públicado em 

07 ago 2025 às 04:00
Arlindo Villaschi

Colunista

Arlindo Villaschi

arlindo@villaschi.pro.br

mais recente tentativa do governo estadunidense de interferir na soberania de outros países explicitou uma característica de sua condução da política externa. Qual seja, a de buscar subordinar os interesses de outros países aos de seu governo e de suas empresas.
Subordinação pela via do seu poderio de guerra; sua dimensão econômica e política no cenário internacional; sua indústria cultural capaz de criar fantasias, tanto a seu favor quanto contrárias a seus inimigos; e, mais recentemente, através de métodos de intervenção via poder judiciário de outros países.
Tentativas de subordinação, através de seus mais diferentes instrumentos, se deram por parte de seus governos — fossem eles democratas ou republicanos. E ocorreram em governos de outros países, independentemente se democraticamente eleitos ou se sob ditatura. No caso brasileiro, o exercício da soberania no estabelecimento de projetos de interesse nacional foi inúmeras vezes pressionado quando afetavam os interesses de empresas ou da geopolítica do império estadunidense.
Governos republicanos (Eisenhower, Nixon, Reagan, Bush 1 e 2, entre outros) e democratas (Roosevelt, Kennedy, Obama, Biden, entre outros) de lá pressionaram governos democraticamente eleitos ou ditatoriais de cá quando estes buscaram implementar projetos que eram entendidos como nocivos aos interesses políticos e econômicos dos Estados Unidos.
Foi assim com projetos como o da siderurgia, sob Vargas ditador; o da exploração de petróleo, sob Vargas democraticamente eleito; o do Plano de Metas, sob JK eleito; o das reformas de base, sob Goulart eleito; o programa nuclear, sob o ditador Geisel; o de expansão dos horizontes geopolíticos, sob Lula e Dilma, legitimamente eleitos para quatro mandatos, entre outros.
Essas pressões se deram diretamente através de ações dos departamentos de estado, de justiça, do tesouro e do comércio do governo dos EEUU e, indiretamente, através de suas ingerências no Fundo Monetário Internacional, no Banco Mundial e em outros organismos internacionais. E foram acompanhadas pela conivência oportunista de parlamentares, de militares, de membros do judiciário e de empresários.
Assim sendo, as atitudes recentes de Trump, se trazem novidades na forma, dada sua falta de um mínimo de pudor por quem ocupa o principal cargo de um país do peso militar, financeiro e geopolítico dos EEUU, pouca diferença trazem em seu conteúdo. Uma das poucas novidades é o fato de Trump usar, explícita e declaradamente, tarifas comerciais totalmente descabidas como forma de buscar forçar interferir na soberania nacional.
Manifestantes se fantasiam e usam máscaras de Donald Trump e Bolsonaro na 25 de Março após falas do presidente dos EUA sobre pirataria no Brasil
Manifestantes se fantasiam e usam máscaras de Donald Trump e Bolsonaro na 25 de Março após falas do presidente dos EUA sobre pirataria no Brasil Crédito: Alexandre Meneghini/Reuters/Folhapress
Assim, escancarou a tentativa de interferir em decisões do poder judiciário brasileiro. Nada de tão novo, visto o que foi feito com a Operação Lava Jato, quando usou o Judiciário para interferir no Executivo. A diferença é que, agora, a tentativa é de fazer com que o Executivo brasileiro intervenha em processos tramitando no Supremo Tribunal Federal.
Tampouco nada de novo com relação à tentativa de submissão do governo brasileiro a seus interesses de exploração de recursos naturais nacionais. Se, no passado, os alvos foram a exploração de minério de ferro, petróleo e gás, agora são as terras raras.
Nada diferente das tentativas de submissão do desenvolvimento tecnológico e inovativo brasileiro, para manter a dependência econômica do país do que é ofertado por suas empresas. Foi assim com a energia nuclear para fins pacíficos, com as telecomunicações, com a exploração de petróleo em águas profundas, e com a capacitação de empresas de construção civil.
Agora é com a tentativa de blindagem judicial de suas big techs e dos interesses oligopolistas de seus cartões de crédito, diante do sucesso do genuinamente nacional Pix
Nada de novo, tampouco, na maneira como busca manter o Brasil como seu quintal geopolítico. No passado, foi restringindo a participação do país em movimentos de não alinhamento automático, e como negociador relevante em questões como o acordo nuclear com o Irã.
Agora, é criando cortinas de fumaça para evitar que o governo brasileiro avance e aprofunde suas relações com parceiros nos BRICS++ e continue liderando processos de cooperação Sul-Sul. Destaque para trocas comerciais e de investimentos sem a intermediação do dólar.
Também nada de novo na maneira como manipula forças retrógadas e reacionários entre políticos, empresários e corporações brasileiras de comunicação. A diferença é que agora algumas dessas forças nem sequer têm o pudor de disfarçar seu adesismo barato de submissão em suas atitudes no Parlamento ou na forma como divulgam notícias enviesadas e/ou falsas.
O enfrentamento desses ataques do governo Trump e de seus asseclas no Brasil precisa ir além de atitudes firmes de autoridades brasileiras. É necessário que elas sejam acompanhadas com o aprofundamento da discussão junto à população sobre o que está por trás do ‘tarifaço de Trump’.
Urge que os brasileiros entendam que a atuação da política externa nacional precisa levar em conta o que foi dito por Henry Kissinger, influente pensador e articulador dos interesses estadunidenses: ‘Os Estados Unidos não têm amigos permanentes ou inimigos, apenas interesses’. Por isso a necessidade de reciprocidade.
Reciprocidade que nas disputas políticas e econômicas, neste momento de turbulência causada por Trump, significa que o governo brasileiro precisa continuar a defender os interesses do Brasil sem ter nos Estados Unidos um amigo permanente ou um inimigo.

Arlindo Villaschi

É professor Ufes. Um olhar humanizado sobre a economia e sua relação com os avanços sociais são a linha principal deste espaço.

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