O boletim eletrônico da revista "The Economist", em sua última edição do mês de outubro, traz duas notícias que valem uma reflexão crítica. A primeira diz respeito ao pronunciamento do presidente da COP26 na abertura da Conferência das Nações Unidas para o Clima, em Glasgow, Escócia. Alok Sharma foi claro e objetivo: a janela de possibilidades para manter o aquecimento global nos desejados 1,5% está se fechando. O encontro do líderes políticos dos países congregados na ONU, segundo Sharma, é a última esperança de manter o 1,5 alcançável; esperança de impulsionar o mais ambicioso esforço coletivo de estabilizar a questão climática.
A segunda, poucos parágrafos adiante da primeira, diz respeito aos lucros extraordinários obtidos pelas gigantes do gás e petróleo no último trimestre anualizado. A explicação para esses lucros extraordinários está nas altas recentes dos preços do petróleo provocadas por processos meramente especulativos, já que nada de concreto na economia real indica sua recuperação efetiva.
A campeã de rentabilidade no jogo da financeirização globalizada é a saudita Aramco, com lucros anualizados de 158%, mas todas as empresas de petróleo obtiveram lucros acima do normal. Segundo a matéria, as gigantes estadunidenses ExxonMobil e Chevron também obtiveram no trimestre anualizado os melhores lucros em anos.
As duas notícias, quando confrontadas, só podem levar a uma indicação: o mercado financeiro, além de estar cada vez mais distante do que acontece com a economia real, traz indicadores na contramão do que necessita o planeta em uma fase tão crucial à sobrevivência da sociedade humana conforme a conhecemos há séculos. Está comprovado que a cadeia produtiva do gás e do petróleo representa praticamente 1/3 do total de emissão de gases estufa. Ou seja, é dela que deve vir contribuição efetiva para que o aquecimento global minimamente se estabilize.
Com lucros excepcionais que mantêm em alta o processo especulativo das finanças globalizadas, os interesses das grandes petroleiras continuam sendo privilegiados por ações dos poderes constituídos em grande parte do mundo. Postos na balança de governos os interesses da maioria da população mundial e os lucros alimentados pela destruição da natureza, há muito se sabe qual a tendência nas decisões dos poderes executivos, legislativos e judiciários em escala global.
Tendência que torna cada vez mais difícil acreditar nos poderes constituídos, mesmo quando esses se fazem através de representações democráticas. Descrença nos poderes e nas possibilidades efetivas da democracia que acrescentam, por um lado, rupturas crescentes ao já esgarçado tecido social. E por outro, pouco incentivo à geração de riquezas via produção de bens e serviços em micro, pequenas e médias empresas.
Acreditar numa mudança de atitude em escala global, como o desejado e esperado da COP26, é fundamental para a sociedade humana como a conhecemos. Para que esse acreditar se efetive, um primeiro passo necessário é a leitura crítica do que é noticiado de forma ‘isenta’ como as duas notícias aqui aludidas.
Juntar as pontas que ligam lucros extraordinários do segmento de exploração de gás e petróleo e os riscos sociais, ambientais e econômicos que esse setor representa é um necessário exercício para quem tem o privilégio da informação e do conhecimento. Privilégio que precisa ser correspondido por maior responsabilidade para com a sociedade como um todo por parte de políticos, acadêmicos e jornalistas, dentre outros.