Deixar às claras o que orienta o posicionamento político de grupos conforme suas afinidades ideológicas é importante para que o embate de ideias necessário para o qualificado debate democrático. Saber que um expressivo número de parlamentares é a favor da anistia antes mesmo do julgamento de tantos que planejaram um golpe de Estado deixa claro que democracia para esses radicais de direita é instrumento a ser manipulado em nome de seus interesses particulares.
Encaminhar a cassação de mandato de um parlamentar de esquerda por falta de decoro quando até hoje nenhum outro caso desse deslize teve qualquer punição é uma demonstração de manipulação do poder para calar vozes dissidentes no debate parlamentar.
No campo econômico, o Brasil também vive oportuno momento de explicitação de posições ideológicas que pode ajudar no entendimento de em nome de quem se quer que políticas públicas sejam desenhadas e operacionalizadas. Quando uma entrevistadora coloca de forma clara que passar a cobrar um mínimo de imposto de renda para quem ganha mais de 50 mil reais/mês pode inviabilizar a tramitação da proposta do Executivo no Legislativo, explicita em nome de quem se quer que o governo atue.
Governo que propõe tributar quem ganha para que pessoas de menor renda paguem menos é criticado de forma explícita com a justificativa de que os poucos que passarão a pagar tem mais poder de pressão do que os muitos que serão beneficiados. Explicitação importante para que se entenda em nome de quem atua parte significativa dos parlamentos brasileiros.
Igualmente importante é ver profissionais qualificados ideologicamente de direita explicitar que é prioritário congelar os aumentos reais do salário mínimo por seis anos para que as contas públicas no Brasil se estabilizem. Sob o razoável argumento de que o governo tem em seus dispêndios previdenciários um problema, um ex-presidente do Banco Central coloca na solução desse problema a bala de prata para o encaminhamento do problema fiscal brasileiro.
Nenhuma menção à histórica drenagem de recursos públicos para o pagamento dos serviços da dívida. Dívida contraída para atender prioridades de poucos principalmente em momentos de ditadura e que se avolumaram porque em nome desses poucos foi estabelecido que ‘dívida não se paga, se rola’.
Dívida cujo pagamento de seus serviços interessa a rentistas muito bem representado por personagens que já passaram por altos postos no governo e que agora atuam como gestores de fundos financeiros. Gestores a quem interessam ajustes fiscais que assegurem o quinhão do capital improdutivo. Ajustes sempre buscados por forças no espectro de direita em processos de privatização e em apertos de cinto nos gastos públicos voltados para o bem-estar da população como saúde, educação, entre outros.
Às evidências acima mencionadas inúmeras outras podem ser citadas como indicativos de que as crises política e econômica que permeiam a história e o presente no Brasil são fruto de uma disputa entre projetos distintos de nação desejada. Por um lado, às forças conservadoras e reacionárias interessa a perpetuação do atendimento histórico dos interesses de uma minoria. Por outro, forças progressistas ousam enfrentar privilégios que se mantêm há séculos em nome da justiça social e de desenvolvimento econômico voltado para a sustentabilidade socioambiental.
Trazer para o debate público essas visões diferentes sobre o que se deseja para o Brasil é necessário para que seja rompida a naturalização do jogo sujo que ocorre em todas esferas de poder mas de forma crescente no passado recente no parlamento. É hora de explicitar que tem nada de normal clamar por responsabilidade fiscal sempre em cima de soluções que só aumentam as desigualdades econômicas e sociais. É hora de nomear os interesses que se escondem por trás de discursos técnicos e da manipulação legislativa.
Só com consciência crítica e coragem política será possível virar o jogo de dissimulações e construir um Brasil onde o Estado sirva à maioria da população e abandone a histórica prioridade para rentistas que sempre se locupletaram de benesses governamentais concedidas graças à exclusão social e à deterioração socioambiental.