O mundo fica mais leve para quem tem o privilégio de encontrar vocês pessoalmente ou através do que produzem. Produção de arte consagrada mundo afora; produção de bem-viver através do pensamento crítico que sempre os inspirou na construção de um outro mundo possível; produção de afetos que a generosidade de vocês propicia.
Generosidade tão bem sintetizada no espetáculo que vocês montaram juntando parte do tanto de imagens coletadas ao longo de décadas pela Amazônia com os sons que Villa Lobos nos legou. Espetáculo que vocês montaram para rodar o mundo e que trouxeram como presente de Natal para quem pôde ir ao Glória na quinta-feira passada (19).
Saímos todos flutuando. Além da suave e contundente mensagem construída a partir de imagens captadas e notas musicais produzidas em tempos diferentes, vocês abriram dois canais de sensibilização para quem tem consciência da importância do momento que vivemos. Primeiro, sensibilizaram com dados sobre a Amazônia brasileira e o chamamento para a mobilização política de parlamentares para barrar ‘o passar da boiada’ que só interessa a quem só se move pela ganância.
Depois, deram um banho de ‘sim, é possível’. As imagens que vocês trouxeram do Instituto Terra dispensam palavras ditas ou escritas. Elas despertam no coração de quem as vê a gostosa sensação de que o destruído pode ser recuperado quando pensamentos, palavras e obras se juntam em prol do bem comum. E nessa capacidade de juntar gente em torno do bem comum, vocês são incomparáveis.
Bem comum em torno de exodus, de amazônias, de recuperação do Bioma da Mata Atlântico. Em torno de criações da Mãe Terra (inclusive humanos) tão maltratadas ao longo do último século e pouco.
Toda a beleza, contundência, resistência e resiliência das palavras e obras que vocês trouxeram para o espetáculo no Glória chegaram em momento crucial para quem busca conservar o pouco que ainda resta em territórios capixabas do bioma da Mata Atlântica. Beleza e contundência que os de hoje e os de amanhã hão de agradecer se o mostrado sensibilizou o governador Casagrande lá presente.
Sensibilização necessária para que ele pare o processo de concessão à iniciativa privada por trinta e cinco anos de parques estaduais criados como unidades de conservação. São santuários onde ainda se conservam espécies cuja existência corre grave risco de destruição causada pelo turismo predatório que será provocado por pousadas, salões de festas, restaurantes e outros penduricalhos objetos da concessão.
Que bom vocês trazerem a mensagem da importância de unidades de conservação na Amazônia. Que ótimo vocês mostrarem o esforço necessário para recuperar para o presente e futuro o destruído no passado no território do Instituto Terra.
Que isso inspire o governador Casagrande para uma mudança de rota quanto às Unidades de Conservação existentes e outras que precisam ser criadas no Espírito Santo. O governo estadual tem dinheiro mais do que suficiente para melhor gerir as UCs. O Espírito Santo tem conhecimentos ancestrais, estudos, pesquisas e pessoal qualificado para repetir de forma ampliada em torno das UCs o que vocês fazem no Instituto Terra.
Que quando vocês vierem para inaugurar o Cais das Artes com o ‘Amazônia’, com orquestra ao vivo e tudo, conforme convite do governador Casagrande, ele possa relatar resultados de investimentos do governo estadual na manutenção das UCs do estado. UCs enquanto bens públicos, geridos e mantidos como santuários.
Santuários onde a contemplação pelos humanos seja respeitosa para com os seres que ali habitam desde sempre. Do jeito que vocês registraram exemplos na Amazônia; do jeito como vocês fazem no Instituto Terra.