Apurados os votos para os parlamentos estaduais e para o Congresso Nacional, vale pensar os resultados para muito além de avanços e retrocessos de forças político-partidárias. Seja nas idas e vindas mensuradas pelo número de cadeiras nos parlamentos dos estados e em Brasília; seja na avaliação de uma perspectiva histórica que examine a evolução de bancadas conservadoras/progressistas desde a queda do regime militar de 1964.
Aqui a opção é por examinar avanços e retrocessos na composição dos parlamentos estaduais e federal em algumas áreas que são cruciais para o futuro da humanidade e para quem deseja para filhos e netos um Brasil melhor. Certamente nas eleições parlamentares deste ano ocorreram retrocessos significativos no que foi conquistado politicamente por quem – como Augusto Ruschi, José Lutzenberger, Chico Mendes, entre outros – nos últimos cinquenta anos lutou pela valorização dos recursos naturais brasileiros. Por quem, como o contemporâneo Antônio Nobre, por exemplo, continuadamente alerta para o valor de florestas brasileiras preservadas no enfrentamento da crise climática em escala mundial e para o regime de chuvas no território nacional.
A esses retrocessos corresponderam avanços significativos daqueles que acreditam no lucro imediato com desmatamentos que destroem a biodiversidade brasileira em todos os seus biomas, de valores reconhecidos internacionalmente para o futuro da humanidade. Desmatamentos que escancaram a fronteira agrícola brasileira para práticas predatórias de segmentos do agronegócio com o uso indiscriminado de agrotóxicos; que se sustentam com a invasão de terras dos povos das florestas e das águas destruindo natureza e culturas que a preservam há séculos.
Marcantes também foram os retrocessos nas bancadas em prol da saúde, da educação, da ciência e tecnologias públicas e de qualidade que tanto podem contribuir para a soberania nacional e os interesses da maioria da população. Retrocessos em bancadas que já contaram com Darcy Ribeiro, Sérgio Arouca, Eduardo Jorge, Severo Gomes. Avanços em bancadas compostas por terraplanistas defensores da privataria da educação, da saúde, da ciência e tecnologia, tudo em nome de interesses que geram mais lucro fácil para o capital improdutivo internacional.
Retrocessos nas bancadas que defendem o Estado laico, os direitos humanos, o respeito e a valorização da pluralidade e da diversidade étnica, cultural, religiosa. Avanços nos diversos parlamentos de bancadas que defendem a bala, o boi e a bíblia (com b minúsculo). Constatações tristes para quem acredita em uma outra forma de fazer política mas que aí estão como resultado do exercício do voto, instrumento importante mas insuficiente para dar sustentabilidade à democracia.
E agora, cidadania, que acredita em um outro Brasil e um outro Espírito Santo possíveis, para onde? A primeira resposta é intensificar o empenho e a dedicação para ampliar a votação obtida no primeiro turno. A segunda é para o dia seguinte ao segundo turno.
É hora de mobilizar forças sociais para garantir governabilidade para quem assume executivos com minoria no legislativo. O embate com forças sem compromisso com a democracia, com a soberania nacional e com o desenvolvimento inclusivo das pessoas e da natureza será longe de simples e fácil.
Por isso a necessidade de quebrarmos com a prática do exercício do voto como o único instrumento com o qual compromissos de cidadania ocorrem; é preciso participar mais na vida política do país e do Estado, independentemente de ser com ou sem filiação partidária. A começar pela busca da vitória no segundo turno para candidatos comprometidos com um futuro melhor para filhos e netos de todos.