A bagagem intelectual de Roberto Garcia Simões até recentemente associava mais de 50 anos de atividades docentes na Ufes com suas diversas contribuições sobre o que aconteceu na formação socioeconômica capixaba nas últimas cinco décadas. Essa duas facetas há muito o credenciam como um pensador singular que sempre brindou alunos, colegas e público leitor/ouvinte com visões críticas sobre a realidade, inspirando-os a novos olhares sobre o cotidiano e o nem sempre imediato.
Dadas essas credenciais, causou surpresa a decisão do professor Bubu, como é conhecido, de prosseguir em sua formação e ir um passo a mais em sua educação formal, enfrentando um doutorado. E ele o fez abraçando a tarefa como se tivesse terminado o mestrado recentemente.
Migrou da arquitetura e urbanismo para a geografia, voltou a ser aluno, fez todas as disciplinas obrigatórias e partiu para a elaboração de uma tese. O tema escolhido guardava semelhança com a temática global-local tantas vezes explorada por ele em seu artigos semanais neste jornal e também quando de sua participação do Projeto Espírito Santo no Século XXI, patrocinado pela Rede Gazeta.
Se o tema era semelhante ao feito no passado, a abordagem foi totalmente nova pois os tempos e os lugares são hoje bem diferentes. Essas diferenças foram trabalhadas pelo doutorando Bubu com ousadia e sem limites de buscas de fontes e abordagens diferentes das que tinha utilizado em seu passado acadêmico e profissional. Ousadia que o coloca na fronteira do que hoje se produz na academia e em práticas profissionais sobre os instigantes tensionamentos local-global.
Em suas próprias palavras: “Num tempo de desafios inauditos, essa geoanálise transborda para a 'análise' na política em espaços e tempos chamuscados por 'fins' e extinções, sem fins. Impõe-se uma geoanálise associada a geoações transformadoras na e da Terra – abrangendo modos de vida de povos e mundos por virem ou em resistências criadoras”.
Desafios inauditos que suscitaram respostas criativas tanto na forma como no conteúdo da tese. O conteúdo foi aprovado com louvor por uma mais do que qualificada banca. Aqui vão alguns poucos registros das ousadias do agora Roberto Garcia Simões, PhD.
Ousou desconsiderar os formatos tradicionais de apresentação de trabalhos acadêmicos. A começar pelo abandono da tradicional introdução. Para um conteúdo novo sua opção foi por ambulo que segundo ele Houaiss diz ser “... andar à volta, passear; deambular, perambular.”
Já no começo do seu passear por “...caminhos (imprecisos) do se elaborar uma tese (onde) não faltam desvios, atalhos, pedras, retas e curvas, freadas, buracos... trombadas, enfim, (im)purezas e (im)previstos”, ele se coloca como responsável por procurar e testar ferramentas que possibilitem “...driblar ou até saltar alguns deles, ainda que muitos outros permanecerão sem (re)solução – e motivem (des)continuidades pós-tese”.
E ele andou à volta, passeou e perambulou por obras consagradas e outras novas de forma a apresentar ao leitor mais do que um exercício acadêmico em si. Ele instiga a cidadania de todos, da pessoa comum a quem exerce poder de pauta na vida pública ou privada.
E o faz sem qualquer tentativa de respostas fáceis para questões complexas. E elas estão explicitadas naquilo que tradicionalmente seria o capítulo de comentários finais. Da forma e com o conteúdo de como a tese está construída, impossível comentários finais ou conclusões.
Pelo contrário, ele encerra a tese com questões que nos cabe a todos: “Há um “mundo por vir”? Há um “povo por vir”? Ou o Terraceno indica que ambos, mundo e povo, podem não vir? Apocalipse? Colapsologia? Fim? Catástrofe? Hecatombe? Há Espaços e Tempos para Lutas?”.
Indicações de caminhos são apresentadas por ele. Dentre outros: "...torna-se imprescindível implodir uma construção e a disseminação das tecnologias de informação e comunicação (...) em uma das suas expressões espaciais mais conhecidas, o “Vale do Silício”, na Califórnia (EUA); dos aparatos digitais como sendo uma via de 'desenvolvimento sustentável'.”
E mais: “E, então, como reencontrar o povo e a terra? A democracia das 'maiorias' seria uma maneira de reduzir, apenas, o ritmo de destruição implacável da Terra, já que os diferentes 'negacionismos' das mudanças da e na Natureza o acelerariam necrofilamente? Ou não se trata de toda e qualquer democracia, apesar de ela poder, em algumas situações, abrir frestas para soltarmos uma linhazinha de uma fuguinha diminuta?”
Por onde começar? Talvez pelo conteúdo dos agradecimentos feitos pelo Dr. Bubu: “Ao professor Cláudio (Zanotelli)... pelas conversas intermináveis no estacionamento, na feira orgânica, nos bares. .Aos colegas do Laburp, pelos diálogos em sala e pelos ocorridos gostosamente na cantina do CCHN – UFES. ... A Gorete e Matheus e Henrique e Gisa, (pelo) com carinho, alegre. ...(por) Aprendemos a conviver com a sensibilidades das plantas e da cachorra."
Para muito além de um título de doutor, o professor Bubu aprofundou no seu doutorado a essência do bem viver: o ser humano de forma íntegra.