Há cerca de vinte anos um grupo de pesquisadores de universidades em diversos estados brasileiros estudou o tema da inovação junto a arranjos produtivos de micro, pequenas e médias empresas (MPMEs) em diversos segmentos da economia. Uma das questões levantadas junto aos empresários foi a de como eles financiavam inovações em suas empresas.
De mais frequentes para menos frequentes, as respostas registraram: recursos próprios e obtidos junto a familiares; fornecedores; clientes; agiotas e bancos. Indagados em entrevistas qualitativas o porquê de cada opção, as respostas foram quase que unânimes: com as taxas de juros praticadas pelos bancos, só em último caso eles são buscados para financiar expansões e inovações nas MPMEs.
A preferência por agiotas ao invés do sistema bancário foi justificada pelo fato de que a diferença cobrada é pequena; o tempo demorado para a liberação dos recursos menor; e os bancos, além de tudo, ainda querem que o empreendedor compre seguro, cartão de crédito etc.
Passados os anos, é possível que essa realidade de financiamento de atividades de MPMEs tenha mudado um pouco. Apesar de algumas linhas criadas em bancos públicos (BNDES, Caixa Econômica Federal, bancos estaduais de desenvolvimento) e de capital misto (Banco do Brasil e bancos estaduais), o financiamento de empreendimentos de menor porte e empreendedores individuais se faz a juros insustentáveis.
Primeiro, porque a taxa básica de juros (Selic) é desnecessariamente elevada. Segundo, porque os spreads praticados pelos bancos também estão em níveis que inviabilizam expansões e inovações em empresas. Pior, a Selic praticada sob o infundado argumento de que “...é preciso controlar a inflação” onera as contas públicas de tal forma que os dispêndios governamentais com investimentos em saúde, educação, infraestrutura e financiamento de MPMEs, dentre outros, fiquem cada vez menores.
Daí ao círculo vicioso do baixo investimento, menos emprego, menos renda, menos consumo, menos arrecadação de impostos, menos investimentos... É um pulo. Pior, poucos recursos para saúde, educação e geração de trabalho e renda aumentam o esgarçamento do tecido social.
O argumento ortodoxo do presidente do Banco Central, segundo o qual é preciso diminuir a taxa Selic em doses moderadas para manter a inflação sob controle, carece de evidências. Selic que tem forte impacto no serviço da dívida pública, o que faz com que o ‘honrar compromissos com credores’ resulte em aumento nas dívidas sociais históricas: saúde, educação, meio ambiente, dentre outras.
O resultado é que a economia cresce a taxas muito aquém de seu potencial e cresce mal. Mal porque sua dinâmica continua atrelada à exportação de commodities de baixa valor agregado, dependente de recursos naturais não renováveis e gerando pouco trabalho e renda.
Os últimos resultados do crescimento do PIB demonstram que enquanto o segmento produtor de commodities para exportação cresce a taxas elevadas e o de serviços recuperou dinamismo em função de políticas públicas, ainda que tímidas, do governo Lula 3, o setor industrial continua operando a taxas negativas.
Desindustrialização que pouco pode surpreender diante do fato de que a decisão de investir em atividades industriais tem horizontes de médio e longo prazos. Além disso, seus retornos são inferiores aos obtidos com aplicações na ciranda financeira que há muito opera no Brasil.
Ciranda financeira que gera pressão, via parlamento e meios de comunicação corporativos, pela manutenção da Selic elevada e pelo equilíbrio fiscal via redução de gastos com saúde, educação e investimentos.
Assim, de volta a círculos viciosos que impõem à economia brasileira sucessivas décadas perdidas, tão regulares que se torna inevitável a distopia de “no passado o futuro era melhor”. Triste, principalmente para os mais jovens, de quem há muito foi retirado o direito a utopias.