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Sextas Crônicas

As aparências insanam: o bordado e seu avesso

Viver é palco, mas também é backstage. É close e é corre. É carão e rímel borrado. Todos temos um lado menos fotogênico, mas ele existe e nos integra. Por que negá-lo?

Publicado em 26 de Janeiro de 2024 às 01:35

Públicado em 

26 jan 2024 às 01:35
Aurê Aguiar

Colunista

Aurê Aguiar

aure@aureaguiar.com.br

Aprendi a bordar na adolescência. Estudei em um colégio onde noções básicas de bordado faziam parte do currículo.
Em cada página do bloco que reuniu meus primeiros bordados havia um desenho feito com pontos diferentes, ponto matiz, ponto cheio, ponto corrente. Pelo que me recordo, eram sete pontos básicos.
O relevo dos bordados ainda ativa minha memória tátil. Volto ao ponto de encantamento com as linhas coloridas que traziam para o real meu universo imaginário. Estavam lá, realizados em linho e linha, a macieira – que só conheci já adulta, estrelas cadentes, flores sempre abertas e andorinhas e colibris, que jamais cansavam de voar.
Os bordados, colados em blocos espiralados de papel cartão, escondiam seus avessos, apenas o lado direito ficava exposto. Mas quem aprende a bordar sabe da importância de estruturar bem um avesso para o melhor acabamento do todo.
Seres humanos são como bordados, necessitam de bons laços para sustentar seus avessos, que, supostamente, ficam encobertos. Ou deveriam ficar, até que as redes sociais misturaram público e privado na mesma tela e escancararam os nossos avessos. Mesmo momentos muito íntimos, por força do vício, da trend ou do contrato são expostos sem pudor.
Essa intimidade nociva autoriza a invasão de espaços subjetivos do outro. O filósofo coreano Byung Chu Han, no seu livro “No Enxame”, fala que o respeito pressupõe um lugar distanciado, no trato respeitoso com os outros controlamos o nosso observar. Sem o pathos da distância, seremos uma sociedade do escândalo.
Viver é palco, mas também é backstage. É close e é corre. É carão e rímel borrado. Todos temos um lado menos fotogênico, mas ele existe e nos integra. Por que negá-lo?
Pois é, quem diria que a espetacularização da privacidade fosse um risco à saúde mental? Que a angústia, um importante sensor de desconforto interno e fundamental para mudanças, seria abolida dos papos mais íntimos entre amigos, porque intimidades esgarçadas não sustentam questões mais relevantes ou densas. Não têm um tecido firme para estruturar bordados mais elaborados.
O mercado, tiranicamente, pede leveza enquanto endurece os corações. Ninguém tem tempo para ouvir a voz da própria dor, e, muito menos, da dor do outro. Tudo é patologizado, medicado e devidamente recalcado. Sabe-se lá quando e onde vai explodir.
Vanessa Lopes
Vanessa Lopes Crédito: Reprodução @bbb
Quando a explosão acontece, o foco é o escândalo e seus pormenores irrelevantes. A oportunidade de entender as questões mais profundas é desperdiçada, e logo outro escândalo se sobrepõe àquele que se sobrepõe a outro e está feito o ciclo de repetição.
Afetos rasos embalados em fotos e vídeos prontos para consumo rápido podem atender ao mercado, mas esvaziam de sentido a vida. Não será negando nossas emoções profundas que caminharemos para novos arranjos mais saudáveis e dignos da complexidade humana.
Somos sim um lindo bordado em construção, mas dependemos dos nossos avessos para que ele não se desmanche.

Aurê Aguiar

É jornalista e escritora, escreve quinzenalmente a coluna Sextas Crônicas

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