Perdemos Francisco. O mundo encheu-se imediatamente de perdas. Os refugiados do Sudão, apinhados sobre caminhões de desespero e desesperança, perderam. A avó, que, hoje, neste momento, na Mauritânia, cozinha no fogão de barro uma sopa de ossos para os netos, perdeu. O jovem senegalês, que trabalha de sol a sol nas plantações de amendoim, perdeu. Seu primo, enterrado no escuro da mina, ainda não sabe, mas também perdeu. As crianças da Nigéria, da Eritreia e da Etiópia perderam. As mães de Burkina Faso perderam, como perderam as meninas somalis e gambianas mutiladas no corpo e na alma. Perderam os subnutridos da Libéria, Angola e Maláui. Os famintos de Ruanda perderam. Agualusa e Chimamanda Adichie perderam juntos. Meu amado Mia Couto perdeu. Ondjaki também perdeu. O mestre Coetzee, que me foi apresentado por Itamar Vieira Júnior, perdeu. A África poderia ocupar toda esta crônica, escrita em bloco, sem respiro. É de lá que ouço o choro mais constante. Dos rios de lágrimas africanas brotam novos olhos d’água. Vem de lá o lamento mais alto, abafado pelos AirPods do mundo. A África, a mãe rejeitada, perdeu mais que todos. Por lá, perderam os que choram, os que dançam, os que creem e os incrédulos. Perderam muito os famintos por milagres. Perderam as mulheres de todo o continente e perderam os órfãos dançarinos de Uganda. Mais de meio bilhão de pessoas perdeu um olhar de compaixão interessada, de amorosidade irrestrita, muitos ainda estão sem saber que isso existia no mundo. Nunca lhes foi dito que alguém, nos últimos quarenta anos, rezou todas as noites para que lhe fosse ensinado a “entender os sofrimentos e não vê-los como maldição”. Da África, berço renegado da humanidade, há mais de dois milhões de anos, vem um choro contínuo dos inocentes que sentem muito. A África, desvalida, rechaçada, faminta, vilipendiada, escravizada, violentada pelos senhores do mundo, perdeu uma voz que ecoava no universo, com ousadia e humildade, com fé e persistência. A voz corajosa que foi perdida pelos ucranianos, russos, palestinos e israelenses. A voz da paz, que jamais excluiu a dor do outro, não importava quem fosse o outro. Perderam os favelados, os sem-teto, os gays, os trans, os postos à margem como refugos. Todos esses, da África, em primeiro lugar e, depois, de todos os lugares, inclusive do Brasil. Não foi o mundo católico que perdeu. Foi o mundo. Todo. A natureza perdeu. Perderam os idosos e os bebês. Os poetas e os músicos. A arte perdeu. Para ela, Francisco deixou uma missão: “A arte nunca pode ser um anestésico; ela dá paz, mas não adormece as consciências, ela as mantém despertas. (...) É preciso lançar a luz da esperança na escuridão da humanidade, do individualismo e da indiferença. Ajude-nos a vislumbrar a luz, a beleza que falta." Trevas sobre a França, Portugal e a Espanha pouco depois que perdemos o Papa Francisco convocam os grandes berços da arte à reflexão.
Perdemos Francisco.
Ganhamos o seu legado: dobrar a aposta no amor e no humor.