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Sextas Crônicas

Sobre influenciadores e bets: nunca foi sorte, é método

Influenciar é afetar. Alterar o mundo ao redor com a sua presença. E é preciso ter consciência do próprio tamanho para entender o dano — ou o avanço — que se é capaz de produzir

Publicado em 16 de Maio de 2025 às 02:00

Públicado em 

16 mai 2025 às 02:00
Aurê Aguiar

Colunista

Aurê Aguiar

aure@aureaguiar.com.br

Vejo os rapazes nas esquinas com os olhos grudados no celular. Reunidos, com rostos iluminados pelas telas, não conversam entre si. Um brilho ansioso, uma esperança que pisca em frações de segundos, é a promessa de que, com dois cliques e trinta reais, a sorte mudará de lado. Como se ela tivesse lado.
As bets não são só plataformas de apostas — são dispositivos emocionais. Não chegam como vício, mas como alívio: alívio para o tédio, para o medo, para a falta de futuro. Acredita-se que, ali, entre um palpite e outro, será possível enganar o destino. Mas o destino, sabemos, não se dobra às ilusões, 
Os rapazes das bolsas térmicas nas ruas frias não são os únicos influenciados a fazer uma nova aposta, e outra e mais uma e assim sucessivamente. São também os pais, os tios, os vizinhos. São homens e mulheres adultos, cansados da escassez, tentando fabricar o milagre da multiplicação após morderem iscas perversas. Que fique claro, não é entretenimento. É um jogo desigual, onde o mais fraco paga para ver, porque crê. Aposta no dinheiro e acerta na vergonha.
Acredite, as sereias do mercado são hipnóticas. Seduzem. Abduzem. Fartam-se no mar de equívocos da pós-modernidade, ilusório e espumoso.
Não é um jogo de azar e sorte. É um método de mortificação do outro, um combo bem embalado. Nele estão: a voz de amigo, a cara de felicidade – essa tal que agora é comercializável, o brilho nos olhos com lentes coloridas, e a danada da intimidade forjada, fakeada, sob ring lights e fundos infinitos. Tudo formatado para vender a esperança em forma de link.
Quem resiste a este chamado da sorte? Quem resiste a nadar no raso da vida, onde sucesso é igual a fama, que é igual a dinheiro. Tudo simplificado, resumido. Se quem navega em iates de privilégios não resiste, quem dirá os que estão à margem da vida instagramável.
Quem quer parir consciência, se, hoje, casais estão brigando na justiça pela guarda de bebês reborn? Pensar dá trabalho, sentir causa dor. Qual o sentido de manter a complexidade humana, se a vida não passa de um jogo de cartas marcadas?
A influencer Virgínia Fonseca depõe na CPI das Bets
A influencer Virgínia Fonseca depõe na CPI das Bets Crédito: Gabriela Biló/Folhapress
Influenciar é afetar. Alterar o mundo ao redor com a sua presença. E é preciso ter consciência do próprio tamanho para entender o dano — ou o avanço — que se é capaz de produzir. Quando um rosto famoso diz “aposte aqui”, ele não está só vendendo um produto. Está oferecendo ilusão a quem já vive à beira do colapso. Não é ilegal, mas a que moral atende?
Porque os interesses são grandes demais, palavras e silêncios comprados deveriam valer cada vez menos. Patrocinar e monetizar o desespero alheio é uma prática vergonhosa.
Quem não dá ouvidos para sereias e sereios que fale, escreva, argumente, deixe de consumir. Não precisamos ser cúmplices com quem lucra com o colapso mental das pessoas. Talvez não consigamos reverter totalmente os danos, mas podemos sempre mitigá-los. E isso é grandioso para uma vida que vale por si.
“O único vício saudável é o amor”, dizia Pepe Mujica. É preciso estar atento e forte contra o poder de dano dos ilusionistas.

Aurê Aguiar

É jornalista e escritora, escreve quinzenalmente a coluna Sextas Crônicas

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