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Sextas Crônicas

Topa tudo por dinheiro?

Uma filha que roubou a casa da própria mãe era algo escandaloso no final da década de 80, mas hoje o que os jornais trazem sobre violências de todas as naturezas no “seio familiar”?

Publicado em 04 de Abril de 2025 às 05:00

Públicado em 

04 abr 2025 às 05:00
Aurê Aguiar

Colunista

Aurê Aguiar

aure@aureaguiar.com.br

No universo corrupto de "Vale Tudo", a novela que retornou às telas com uma nova geração de atores, um tema persiste: o dinheiro como valor supremo. Exibida pela primeira vez em 1988, foi um escândalo na época - censurada por suas cenas ousadas, diálogos picantes e violência doméstica. Hoje, graças à Constituição, promulgada no mesmo ano, não existe mais a Divisão de Censura das Diversões Públicas. Os tempos mudaram, mas a obsessão pelo lucro acima de tudo permanece.
Sou uma curiosa em relação à psicanálise, foi através dela que aprendi que isso se chama "fetichismo da mercadoria" — quando o objeto de desejo (no caso, o dinheiro) se torna um fim em si mesmo, obscurecendo todos os outros valores. Isso explica, teoricamente, pessoas cheias de dinheiro, alucinadas por mais e mais dinheiro, sem se importar com os meios para obtê-lo.
A pergunta que fica é: o que acontece quando o valor do dinheiro é colocado acima de todos os outros? Existem muitas respostas, mas a principal delas é o adoecimento da sociedade, onde as relações são distorcidas e o bem-estar é sacrificado no altar do lucro.
O remake de uma novela exibida há 37 anos traz uma pergunta incômoda: com tantas oportunidades de aprender com o passado, ainda vale tudo por dinheiro? Por que ainda não sabemos lidar com o dinheiro como ferramenta para promover bem-estar coletivo? O dinheiro promete segurança, status e poder, mas a que custo? Essa dinâmica de posse e controle é saudável para a humanidade?
Uma luta, que já foi silenciosa, por poder e afirmação, hoje é explícita, escancarada. O pedido de Cazuza na música-tema da novela foi atendido. O Brasil mostrou a sua cara. E o resto do mundo também.
Relações distorcidas em que as pessoas são vistas como meios para alcançar fins financeiros, e não como seres humanos com necessidades e desejos próprios, eram mais subterrâneas. Hoje, lutam por mídia. Perdeu-se o pudor.
Antonio Pitanga, Bella Campos e Taís Araujo nos bastidores de 'Vale Tudo'
Antonio Pitanga, Bella Campos e Taís Araujo nos bastidores de 'Vale Tudo' Crédito: Globo/ Manoella Mello
Será mesmo que estamos dispostos a sacrificar tudo pelo dinheiro? Nossas relações, nossa saúde mental, nossa felicidade? Uma filha que roubou a casa da própria mãe era algo escandaloso no final da década de 80, mas hoje o que os jornais trazem sobre violências de todas as naturezas no “seio familiar”?
A reexibição de "Vale Tudo" me fez perguntar: ainda estamos sob o feitiço do lucro inconsciente, ou aprendemos a ver além? Estamos prontos para questionar os valores que nos são impostos e buscar um sentido mais profundo para a vida?
“Vale Tudo” não é só uma novela que ressurge — é um Brasil inteiro, com suas dores não resolvidas, seus recalques à espera de análise. A versão original, escrita por Gilberto Braga, Agnaldo Silva e Leonor Bassères, foi uma das últimas a passar pelo crivo da censura, que desde sempre é uma máquina de cortar cenas e amarrar narrativas. Hoje, felizmente, a história pode se expor por completo. Mas será que nós, espectadores, estamos prontos para encarar o que ela revela?

Aurê Aguiar

É jornalista e escritora, escreve quinzenalmente a coluna Sextas Crônicas

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