Produtores de café do Espírito Santo e de outras regiões em que essa cultura agrícola tem força já começam a se preocupar com os impactos que a pandemia do coronavírus pode ter sobre a colheita do grão.
A atividade cafeeira é uma das mais importantes para a economia capixaba e envolve milhares de famílias e profissionais, que a partir de abril e maio tradicionalmente iniciam os trabalhos para a colheita do café conilon e, em junho, do arábica. Acontece que esse é justo o período em que o Ministério da Saúde prevê o pico de casos da doença no Brasil.
A grande incerteza é como essa colheita, que utiliza um grande volume de mão de obra, vai acontecer. Ainda que a produção mecanizada seja utilizada no Estado, a maior parte da safra é colhida manualmente, uma vez que o revelo capixaba é bastante acidentado e dificulta a utilização de alguns equipamentos.
A coluna conversou com produtores e exportadores do grão e também com diversas lideranças do setor. Todos eles mostraram receio, mas até o momento afirmaram que não acreditam que a colheita será inviabilizada.
Quem é da área reforça que o mais importante, neste momento, é que enquanto a colheita não começar, os profissionais devem tomar os cuidados e priorizar o isolamento para evitar o contágio da Covid-19. Já quando for dada a largada para a safra 2020, a recomendação é que os produtores adotem medidas sanitárias e não permitam aglomerações.
“Como há uma preocupação com a saúde, devemos ter um cenário de dificuldade natural com a mão de obra para a colheita, mas estamos acompanhando os desdobramentos dessa doença e a nossa orientação e de vários órgãos do segmento é para que todos adotem os procedimentos de higiene e busquem formas de garantir o distanciamento entre os profissionais”, ponderou o presidente do Centro de Comércio de Café de Vitória (CCCV), Márcio Cândido Ferreira.
Assim como ele, o presidente da Federação da Agricultura e Pecuária do Espírito Santo (Faes), Júlio Rocha, e o presidente da Cooabriel, Luiz Carlos Bastianello, reforçaram que as entidades estão dando orientações aos produtores e fazendo avaliações constantes sobre quais procedimentos devem ser adotados nesse período.
COLHEITA DEVE SER GRADUAL
De acordo com o presidente do CCCV, Márcio Cândido Ferreira, o café robusta - que é o mais produzido no Estado - permite que a colheita aconteça de forma gradativa, o que pode contribuir para evitar aglomerações no campo.
“O conilon pode demorar um pouco mais no pé do que o arábica. Isso vai permitir que aconteça uma colheita mais seletiva e distribuída, evitando a concentração de café verde no secador e também aglomeração de pessoas para realizar este trabalho”.
Um dos receios dessa concentração é em relação aos profissionais que vêm de outros Estados, especialmente Bahia e Minas Gerais, para trabalhar. Muitos deles ficam em alojamentos e/ou são transportados de ônibus até as propriedades rurais.
Ferreira afirmou que de acordo com dados do Centro de Desenvolvimento Tecnológico do Café (CETCAF) estima-se que cerca de 20 mil pessoas, entre profissionais de dentro e de fora do Espírito Santo, sejam contratadas para as atividades de colheita nos próximos meses.
Apesar da migração de trabalhadores nesse período, o maior envolvimento com a safra acontece entre as famílias produtoras. Atualmente, o Espírito Santo conta com cerca de 95 mil propriedades que produzem café. Desse total, 80% a 85% têm uma produção de até 500 sacas por ano. Segundo Ferreira, esse volume em geral não demanda mão de obra externa.
Por isso, as dificuldades para a colheita devem ser mais acentuadas para os médios e grandes produtores, que dependem dessas contratações.
QUEDA NA DEMANDA PELA BEBIDA
Se não bastasse a apreensão em relação à saúde das famílias e dos profissionais que atuam no ramo do café e como isso pode se refletir no período da colheita, outra dúvida é sobre a comercialização do grão.
Como o Espírito Santo é um grande exportador e alguns países não estão autorizando a chegada de navios, isso pode impactar os negócios. Sem contar que a demanda pela bebida tende a cair com o fechamento de diversos estabelecimentos mundo afora.
Entre os principais importadores do café capixaba estão a Alemanha e a Itália. Ambos os países estão no centro da crise do coronavírus na Europa. “Isso pode causar uma situação de termos muito café no início da colheita, mas não podermos embarcar a carga”, disse uma fonte que trabalha com exportação.
Esse mesmo empresário pondera que a oferta mundial de café atualmente é de aproximadamente 170 milhões de sacas, e cita que existe um equilíbrio entre a produção e o consumo. “Mas com essas restrições, especialmente na Europa, que é um grande centro consumidor, vai sobrar café e isso pode refletir no preço.”
Um empresário que lida com o comércio exterior contou à coluna que já teve pedidos suspensos. “Já tínhamos vendas feitas para a Jordânia, mas o comprador entrou em contato pedindo para suspendermos o embarque já que ele teria problema na chegada da carga.”
CASAGRANDE SUGERE BARREIRA SANITÁRIA
Na última segunda-feira (23), o governador Renato Casagrande (PSB), durante uma live em suas redes sociais, comentou que o período da colheita inspira preocupação, e que cuidados devem ser tomados desde já. “Vamos pedir aos prefeitos para fazer barreira sanitária para que entreviste os produtores, ver quem tem sintomas e determinar o isolamento por 14 dias para que a gente não importe nenhuma doença para cá."