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Apreensão no setor cafeeiro

Coronavírus pode atrapalhar colheita do café no ES

Entidades e produtores do grão estão preocupados com os impactos da pandemia nas atividades do setor. Previsão do pico de casos da doença coincide com período da colheita do café

Publicado em 25 de Março de 2020 às 05:00

Públicado em 

25 mar 2020 às 05:00
Beatriz Seixas

Colunista

Beatriz Seixas

bseixas@redegazeta.com.br

Colheita do café no Espírito Santo é iniciada em abril
Colheita do café no Espírito Santo é iniciada em abril Crédito: Pixabay
Produtores de café do Espírito Santo e de outras regiões em que essa cultura agrícola tem força já começam a se preocupar com os impactos que a pandemia do coronavírus pode ter sobre a colheita do grão.
A atividade cafeeira é uma das mais importantes para a economia capixaba e envolve milhares de famílias e profissionais, que a partir de abril e maio tradicionalmente iniciam os trabalhos para a colheita do café conilon e, em junho, do arábica. Acontece que esse é justo o período em que o Ministério da Saúde prevê o pico de casos da doença no Brasil.
grande incerteza é como essa colheita, que utiliza um grande volume de mão de obra, vai acontecer. Ainda que a produção mecanizada seja utilizada no Estado, a maior parte da safra é colhida manualmente, uma vez que o revelo capixaba é bastante acidentado e dificulta a utilização de alguns equipamentos.
A coluna conversou com produtores e exportadores do grão e também com diversas lideranças do setor. Todos eles mostraram receio, mas até o momento afirmaram que não acreditam que a colheita será inviabilizada.
Quem é da área reforça que o mais importante, neste momento, é que enquanto a colheita não começar, os profissionais devem tomar os cuidados e priorizar o isolamento para evitar o contágio da Covid-19. Já quando for dada a largada para a safra 2020, a recomendação é que os produtores adotem medidas sanitárias e não permitam aglomerações.
“Como há uma preocupação com a saúde, devemos ter um cenário de dificuldade natural com a mão de obra para a colheita, mas estamos acompanhando os desdobramentos dessa doença e a nossa orientação e de vários órgãos do segmento é para que todos adotem os procedimentos de higiene e busquem formas de garantir o distanciamento entre os profissionais”, ponderou o presidente do Centro de Comércio de Café de Vitória (CCCV), Márcio Cândido Ferreira.
Assim como ele, o presidente da Federação da Agricultura e Pecuária do Espírito Santo (Faes), Júlio Rocha, e o presidente da Cooabriel, Luiz Carlos Bastianello, reforçaram que as entidades estão dando orientações aos produtores e fazendo avaliações constantes sobre quais procedimentos devem ser adotados nesse período.
Produção de café no Espírito Santo
Produção de café no Espírito Santo Crédito: Marcelo Prest

COLHEITA DEVE SER GRADUAL

De acordo com o presidente do CCCV, Márcio Cândido Ferreira, o café robusta - que é o mais produzido no Estado - permite que a colheita aconteça de forma gradativa, o que pode contribuir para evitar aglomerações no campo.
“O conilon pode demorar um pouco mais no pé do que o arábica. Isso vai permitir que aconteça uma colheita mais seletiva e distribuída, evitando a concentração de café verde no secador e também aglomeração de pessoas para realizar este trabalho”.
Um dos receios dessa concentração é em relação aos profissionais que vêm de outros Estados, especialmente Bahia e Minas Gerais, para trabalhar. Muitos deles ficam em alojamentos e/ou são transportados de ônibus até as propriedades rurais.
Ferreira afirmou que de acordo com dados do Centro de Desenvolvimento Tecnológico do Café (CETCAF) estima-se que cerca de 20 mil pessoas, entre profissionais de dentro e de fora do Espírito Santo, sejam contratadas para as atividades de colheita nos próximos meses.
Apesar da migração de trabalhadores nesse período, o maior envolvimento com a safra acontece entre as famílias produtoras. Atualmente, o Espírito Santo conta com cerca de 95 mil propriedades que produzem café. Desse total, 80% a 85% têm uma produção de até 500 sacas por ano. Segundo Ferreira, esse volume em geral não demanda mão de obra externa.
Por isso, as dificuldades para a colheita devem ser mais acentuadas para os médios e grandes produtores, que dependem dessas contratações.
Colheita de café no Norte do Espírito Santo
Colheita de café no Norte do Espírito Santo Crédito: Guilherme Ferrari

QUEDA NA DEMANDA PELA BEBIDA

Se não bastasse a apreensão em relação à saúde das famílias e dos profissionais que atuam no ramo do café e como isso pode se refletir no período da colheita, outra dúvida é sobre a comercialização do grão.
Como o Espírito Santo é um grande exportador e alguns países não estão autorizando a chegada de navios, isso pode impactar os negócios. Sem contar que a demanda pela bebida tende a cair com o fechamento de diversos estabelecimentos mundo afora.
Entre os principais importadores do café capixaba estão a Alemanha e a Itália. Ambos os países estão no centro da crise do coronavírus na Europa. “Isso pode causar uma situação de termos muito café no início da colheita, mas não podermos embarcar a carga”, disse uma fonte que trabalha com exportação.
Esse mesmo empresário pondera que a oferta mundial de café atualmente é de aproximadamente 170 milhões de sacas, e cita que existe um equilíbrio entre a produção e o consumo. “Mas com essas restrições, especialmente na Europa, que é um grande centro consumidor, vai sobrar café e isso pode refletir no preço.”
Um empresário que lida com o comércio exterior contou à coluna que já teve pedidos suspensos. “Já tínhamos vendas feitas para a Jordânia, mas o comprador entrou em contato pedindo para suspendermos o embarque já que ele teria problema na chegada da carga.”
Produtores e exportadores de café estão preocupados com redução da demanda pelo consumo do bebida diante da pandemia do coronavírus
Produtores e exportadores de café estão preocupados com redução da demanda pelo consumo do bebida diante da pandemia do coronavírus Crédito: Pixabay

CASAGRANDE SUGERE BARREIRA SANITÁRIA

Na última segunda-feira (23), o governador Renato Casagrande (PSB), durante uma live em suas redes sociais, comentou que o período da colheita inspira preocupação, e que cuidados devem ser tomados desde já. “Vamos pedir aos prefeitos para fazer barreira sanitária para que entreviste os produtores, ver quem tem sintomas e determinar o isolamento por 14 dias para que a gente não importe nenhuma doença para cá."

Beatriz Seixas

Jornalista de A Gazeta, há mais de 10 anos acompanha a cobertura de Economia. É colunista desde 2018 e traz neste espaço informações e análises sobre a cena econômica

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