A passagem do ministro da Infraestrutura, Tarcísio Gomes de Freitas, ontem pelo Estado foi repleta de anúncios ligados à logística. Em seu discurso para o governador Renato Casagrande (PSB), para uma plateia de políticos e empresários e para a imprensa, o representante do presidente Jair Bolsonaro (PSL) reafirmou o compromisso do governo federal de realizar projetos em diversas áreas de norte a sul do Estado.
Tarcísio de Freitas citou obras que contemplam todos os modais – o aeroportuário, o rodoviário, o portuário e o ferroviário. Aliás, obras essas que, se efetivadas, serão capazes de representar uma drástica mudança na qualidade para a infraestrutura capixaba, colocando o Espírito Santo em uma condição de competitividade muito superior à atual.
Entre tantos projetos um, porém, demonstra mais fragilidade de ser tocado e concluído com êxito, pelo menos no curto prazo. Trata-se da ferrovia EF-118, que originalmente prevê interligar Vitória ao Rio de Janeiro. Mas que, em um primeiro momento, é programada para chegar até o município de Anchieta.
A dúvida se esse investimento sairá do papel não está ancorada na falta de vontade da União. O ministro foi muito consistente ao falar sobre a necessidade e o interesse do governo federal de expandir o sistema ferroviário nas próximas décadas. Mas no conjunto de fatores que rodeiam a construção da linha férrea no Sul do Estado, há muitas incertezas que podem fazer os planos federais e estaduais descarrilar.
O primeiro ponto é que o investimento na EF-118 está, nas palavras do próprio Freitas, “no bojo das prorrogações” de contratos, ou seja, depende da renovação antecipada de uma outra ferrovia, que, ao que tudo indica até o momento, será a da Vitória-Minas, da Vale. Acontece que o contrato de concessão da Vitória-Minas se encerra somente 2027, situação que pode fazer com que não exista tanta pressa para definir esse adiantamento de acordo entre a mineradora e a União.
Outra questão que é colocada nos bastidores é que a tragédia de Brumadinho irá adiar o debate da renovação antecipada. Não por uma questão de recursos da Vale, mas por não haver ambiente para trabalhar o tema. A avaliação que tem sido feita pelo governo federal é que é melhor deixar as negociações com a mineradora para depois, assim afasta-se o risco do debate ser contaminado. “Imagina se isso é colocado na mesa agora, a opinião pública provavelmente ia chiar muito”, diz uma fonte.
Quando questionado sobre como estão as conversas com a Vale e se a mineradora está de fato comprometida a construir o trecho até Anchieta, o ministro da Infraestrutura afirmou que isso está em negociação. “Se não for a Vale, vai ser outra empresa, mas que nós vamos fazer a ferrovia até Anchieta nós vamos”, garantiu sem dar, entretanto, um prazo de quando esse debate deverá estar mais consolidado. Se limitou a dizer “em breve”.
Também preocupa a judicialização em relação à renovação antecipada das ferrovias. De acordo com Tarcísio de Freitas, é preciso superar a discussão que existe no Supremo Tribunal Federal quanto aos investimentos cruzados, que são aqueles em que os recursos são aplicados em regiões diferentes de onde existe a concessão.
“Se o Supremo julgar por exemplo o investimento cruzado inconstitucional, não vai ter nada. Então, acabou. A solução criativa que foi dada, ela morre. Então, a gente tem que trabalhar com muita cautela, debate e argumento”, ponderou o ministro que conhece a fundo os projetos ferroviários em jogo.
Vale lembrar que era ele quem estava à frente dessa discussão já no governo passado, do então presidente Michel Temer (MDB). Justamente por isso, Tarcísio de Freitas sabe bem até onde pode fazer promessas. Ontem, ele se mostrou muito confiante de que a EF-118 é um projeto essencial para a logística capixaba. Mas, no fundo, em nenhum momento bateu o martelo que a construção da ferrovia começa em determinada data ou que é a Vale que irá desembolar este projeto.
Os pontos negativos existem, como mostrei ao longo do texto, mas o fato de ter alguém com o conhecimento técnico e a habilidade de negociação, como é o caso do atual ministro, pode contribuir para reverter o quadro de incertezas. O cenário não é o que mais inspira otimismo, mas podia ser pior.
Moqueca valiosa
Depois que o ministro fez o seu pronunciamento e se comprometeu com diversos projetos para a melhoria da infraestrutura capixaba, o governador Casagrande, durante a sua fala, não perdeu a oportunidade de brincar com ele. “Valeu a pena termos gastado um dinheirinho com a moqueca que oferecemos para o ministro”, disse arrancando risos da plateia.
Pego pela distração
O governador cometeu uma gafe durante o seu discurso. Ao cobrar do ministro que ele não tinha falado sobre os projetos para o Aeroporto de Cachoeiro, rapidamente um “falou sim!” ecoou da plateia. Casagrande pediu desculpas em tom descontraído e disse que deve ter se distraído em algum momento. “E eu estou vermelho não é de vergonha não, eu sou assim mesmo, tá gente!?”
Numa fria
O evento com o ministro estava bem concorrido. Muitos tiveram que ficar de pé para acompanhar a cerimônia no Salão São Tiago. Outro desconforto era o calor. O ar-condicionado do Palácio não estava dando vazão para a alta temperatura. Quem se deu bem com o calorão foi um vendedor de picolé que estava a postos na porta do Palácio Anchieta. Entre os clientes do ambulante estava o deputado federal Evair de Melo que, ao final do evento, não resistiu ao gelado.