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Empreendedores do ES

Na Lata: Como um dos maiores grupos de transporte do país enfrenta a crise

Presidente do Grupo Águia Branca, Renan Chieppe, conversou com a coluna sobre os resultados e os projetos da empresa em meio ao cenário da pandemia do novo coronavírus

Publicado em 18 de Outubro de 2020 às 15:00

Públicado em 

18 out 2020 às 15:00
Beatriz Seixas

Colunista

Beatriz Seixas

bseixas@redegazeta.com.br

Renan Chieppe é presidente do Grupo Águia Branca
Renan Chieppe é presidente do Grupo Águia Branca Crédito: Águia Branca/Divulgação
Um dos maiores conglomerados empresariais de transporte e logística do Brasil, o Grupo Águia Branca,  prevê encerrar o ano com um faturamento 20% inferior ao de 2019, quando a companhia registrou uma receita da ordem de R$ 7 bilhões. Apesar da queda, o resultado é encarado pela empresa de forma tranquila  e avaliado até como satisfatório, dada a gravidade da crise enfrentada pelo país e pelo mundo com a pandemia do novo coronavírus
Para o presidente do grupo capixaba, Renan Chieppe,  a Covid-19 e os seus reflexos foram responsáveis pela maior sacudida que ele já presenciou em termos globais. "Não vivemos nada tão desafiador até hoje." À coluna, o empresário disse que o cenário que se apresentou em 2020 exigiu a tomada de decisões rápidas, mesmo quando ainda sobravam mais dúvidas do que respostas e ninguém sabia ao certo quais seriam os desdobramentos da pandemia e quanto tempo ela iria durar. 
"Tem coisa que a gente planeja, mas tem coisa que é impossível prever.  Algo como o que aconteceu estava completamente fora de qualquer prognóstico.  O que vínhamos discutindo era sobre o ritmo que o Brasil ia crescer em 2020.  Mas aí, quando tem uma crise desse tamanho, todas as prioridades mudam. As prioridades do país mudaram, as prioridades dos Poderes mudaram, e com as empresas não foi diferente.  Tanto é que fizemos um planejamento muito rápido. Criamos um comitê gestor e demos início às ações, primeiramente com foco na saúde das pessoas e na sequência voltadas para a segurança financeira. "
O executivo explicou que todos os negócios da companhia - o grupo atua com serviços de transporte aéreo e rodoviário de passageiros, logística e comércio de veículos - sofreram impacto,  ainda que em graus diferentes. "Teve negócio que parou, teve negócio que não parou e teve negócio que acelerou."
Abril e maio foram os meses mais dramáticos para empresa,  seguindo o comportamento de todo o país, quando as restrições de circulação foram mais rígidas e refletiram no desempenho da economia. Nesse período, a venda de veículos caiu 70%, a divisão de passageiros operou com apenas 10% da frota e os contratos da Vix Logística registraram um faturamento 15% menor. Mas conforme os meses passaram a situação ficou mais estável e indicou que o baque seria menor que o imaginado no primeiro momento.
Tanto é que hoje a perspectiva é que a Vix Logística consiga cumprir o orçamento previsto para 2020.  A área de comércio demonstra retomada e até vem surpreendendo em alguns setores, como é o caso da venda de caminhões que, em setembro, bateu recorde, de acordo com Renan Chieppe. "Nunca vendemos tanto caminhão pesado", comemorou ao citar que a demanda foi impulsionada principalmente por clientes das áreas do agronegócio, celulose e mineração. 
Já o segmento de passageiros reage mais lentamente e é o que deve contabilizar as maiores perdas.  A previsão é que o faturamento seja reduzido à metade em 2020, fato que não trará impactos tão expressivos para o resultado geral do grupo em função da receita com a Viação Águia Branca representar apenas 10% entre todos os negócios. 
Para Chieppe, a empresa vai chegar bem estruturada ao final deste ano e pronta para continuar a desenvolver seus projetos ao longo de 2021. Na sua avaliação, essa condição será possível em virtude da tradição que o grupo tem de trabalhar com um caixa sólido, ter um time bem preparado, contar com clientes robustos e uma diversificação entre os seus negócios,  além de ter sido capaz de adotar as ações necessárias rapidamente. 
Mesmo com toda a instabilidade econômica no país, o empresário lembrou que a companhia seguiu com seus projetos e investimentos em produtos e serviços voltados para a inovação. Citou que a empresa acredita no V1  como uma plataforma que contribua com soluções para a mobilidade, disse que o projeto do Go Drive, carro por assinatura, vem sendo acelerado  e que várias outras iniciativas ligadas à tecnologia e inovação são apostas da empresa.
Questionado sobre investimentos e faturamento projetados para o próximo ano, Renan Chieppe afirmou que os números ainda não estão fechados, mas mostrou-se otimista, especialmente com a área de logística. O empresário disse ainda que espera retomar as contratações, uma vez que o ano de 2020 deve encerrar com cerca de 2 mil profissionais a menos. "Aqueles colaboradores que não estão conosco serão os primeiros a retornarem à empresa à medida que a atividade econômica voltar ao normal."
Para essa normalidade se reestabelecer, o presidente do Grupo Águia Branca defende que o Brasil se reorganize do ponto de vista fiscal e melhore a capacidade de diálogo. "Não é hora de posições extremadas. Precisamos que o diálogo entre os Poderes funcione melhor.  Responsabilidade fiscal e entendimento são dois pontos básicos para o país de recuperar."
Confira abaixo o bate-papo do "Na Lata" com Rena Chieppe.
Veículo da Vix Logística, que presta serviços para diferentes setores da indústria Crédito: Grupo Águia Branca/Divulgação

PERFIL

  • Nome: Renan Chieppe
  • Empresa: Grupo Águia Branca
  • No mercado: Desde 1946
  • Cargo: Presidente
  • Negócio: O Grupo atua em 3 divisões de negócios: Divisão Passageiros (Viação Águia Branca e Aguia Flex); Divisão Logística (Vix Logística, Autoport, Let’s e V1); e Divisão Comércio (concessionárias Kurumá, Land Vitória, Osaka, Savana, Vitória Diesel, Vitória Diesel Pneus, Vitória Motors Jeep e Vitória Motors Mercedes-Benz, além do Go Drive)
  • Atuação: Brasil e Argentina
  • Funcionários: 14.500, entre diretos e terceiros

JOGO RÁPIDO COM QUEM FAZ A ECONOMIA GIRAR

Economia:

O nosso país tinha um problema muito mais de orçamento do que de fundamentos econômicos. Agora, o problema de orçamento passa a ser muito maior, e certos parâmetros começam ficar em risco no médio e longo prazos. Apesar disto, somos sempre otimistas. Precisamos seguir em frente, não nos deixar abater por tudo o que está acontecendo no Brasil e no mundo. Temos que reconstruir as coisas e, assim, a economia pode se recuperar. Ninguém vai fazer isto sozinho. Temos que começar a remar para o mesmo lado, acabar com o cabo de força. Só há este caminho.

Pandemia do coronavírus:

Foi a maior sacudida que presenciei até hoje na minha vida em termos globais. Não vivemos nada tão desafiador até hoje. Fomos afetados de várias formas e o mais grave é que um número muito grande de pessoas perdeu a vida. Aprendemos que não temos tanto controle das coisas como pensávamos. Acho que já estamos enxergando uma saída e espero que em breve tenhamos a vacina. O mundo vai reaprender algumas coisas e criar novas soluções.

Pedra no sapato:

Sempre existirão pedras em nossos caminhos, como bem escreveu o poeta Carlos Drummond de Andrade. Mas o importante é ter determinação para remover as pedras, seja do caminho ou do sapato, e seguir em frente acreditando em dias melhores, elaborando novos projetos, acreditando, inovando e ousando.

Tenho vontade de fechar as portas quando:

Empresas como as nossas nunca pensam em fechar as portas. Afinal, faremos 75 anos daqui a alguns meses, em 2021, e sempre enfrentamos desafios. Poderia dizer que ficamos tristes quando sentimos que algum setor, deliberadamente, não quer contribuir para o desenvolvimento econômico e social do nosso país. Quando alguém que, mesmo tendo condições de contribuir para um Brasil melhor, prefere se isolar na sua verdade. A verdadeira forma de inclusão social vem de uma economia forte e de um Estado que funcione bem em setores essenciais. Vejo muita perda de tempo no nosso país com discurso de ódio. O nosso país precisa de segurança política e jurídica como forma de ter investimentos, e não falo somente do capital internacional, mas também do capital privado brasileiro. Somente assim poderemos resolver os graves problemas de emprego, saúde, educação e segurança pública, entre outros.

Solto fogos quando:

Quando vejo gente otimista, trabalhadora, que, independente do tamanho da sua contribuição, faz o seu melhor. Gosto de gente corajosa e que acredita no que faz. Admiro muito quem inova, quem reinventa as atividades ou mesmo quem faz o antigo mas de forma muito melhorada, e assim traz o desenvolvimento e a prosperidade. Acima de tudo, respeito muito quem respeita o cidadão, o consumidor, as pessoas.

Se pudesse mudar algo no meu setor, mudaria...:

Atuando em transportes, logística e revenda de veículos e materiais afins, penso que o desenvolvimento da nossa infraestrutura é fundamental para um país mais produtivo, mais atrativo e que possa prestar melhores serviços ao consumidor final. Esta é uma das nossas maiores expectativas no Grupo Águia Branca. Gostaríamos também de ver mais justiça na questão tributária, pois o nosso país tem uma enorme carga tributária.

Minha empresa precisa evoluir em:

Somos uma organização em constante evolução. Temos adotado muitas novas estratégias a partir da transformação digital, do foco no cliente e do desenvolvimento de processos mais eficientes. Temos um time de gestores brilhantes e nosso desafio é continuar nesta pegada. Quando terminamos uma tarefa ou um projeto sabemos que temos o mundo pela frente para ser conquistado novamente. A evolução é constante e o desafio é ter, cada vez mais, times engajados e que nos representem bem na tarefa de mover o mundo com excelência e respeito às pessoas.

Se começasse um novo negócio seria...:

Estamos muito interessados nos nossos negócios já lançados ou em lançamento baseados em desenhos mais digitais e inovadores. Estamos também com uma atuação muito proativa em estudos na área de energia.

Futuro:

Estamos sempre escrevendo o futuro. Inovar e ousar são verbos fundamentais para quem quer e acredita num futuro melhor.

Uma pessoa no mundo dos negócios que admiro:

Tenho muita admiração pelo meu pai e pelos meus tios, pela forma simples que desempenham ou desempenharam seu papel no mundo dos negócios. Gostaria também de citar o tipo visionário do Eliezer Batista e Ozires Silva numa era em que o desafio era construir um Brasil forte e grande, muito parecido com nosso desafio atual.

Beatriz Seixas

Jornalista de A Gazeta, há mais de 10 anos acompanha a cobertura de Economia. É colunista desde 2018 e traz neste espaço informações e análises sobre a cena econômica

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