A administradora Cristhine Samorini assumiu nesta semana, em uma cerimônia de posse no dia 29, a presidência da Federação das Indústrias do Espírito Santo (Findes), substituindo Léo de Castro, que ocupava o cargo desde 2017. A industrial, que é do ramo gráfico, chega na função em um dos momentos mais desafiadores da história do Estado, do país e do mundo, que foram surpreendidos neste ano pela pandemia do novo coronavírus e por todos os seus reflexos na saúde e na economia.
Com um discurso que durou 12 minutos, Cris, como gosta de ser chamada, passeou por diferentes pontos. Abordou o negócio da família, fundado há 100 anos, lembrou como a crise do café representou uma virada para a indústria capixaba, citou os grandes projetos industriais. Falou sobre o presente, sobre a busca de saídas para a crise da Covid-19 e sobre os gargalos e entraves que a indústria e a economia capixaba convivem. E, claro, abordou o futuro e o plano da sua gestão para os próximos anos.
A empresária, que demonstrou muita segurança em sua fala, foi enfática na necessidade de avançar em questões que tornem a indústria cada vez mais produtiva, inovadora e competitiva.
Outro ponto que chamo a atenção é para como ela tem reforçado a necessidade da construção de ideias e propostas de forma coletiva. “Diálogo como matéria-prima para um projeto de sucesso” e “o bem coletivo sempre nos dará os melhores resultados” foram alguns dos trechos do discurso e que dão uma ideia de qual marca ela pretende deixar à frente da federação.
As palavras e a mensagem transmitidas pela capixaba foram muito apropriadas. Eu diria impecáveis, não fosse pela ausência de destacar que ela é a primeira mulher a assumir a Findes. Cris foi tímida em valorizar o feito que ela carrega com si. Ao longo dos 12 minutos de fala, a única menção próxima a isso foi quando disse:
"Sei a dimensão do desafio que enfrentarei ao lado da diretoria que me acompanha. Como empresária, como gestora, como mãe e como mulher. Seremos avaliados por nossas entregas nos próximos três anos e trabalharemos com a máxima dedicação, servindo de exemplo para que novas lideranças surjam no meio empresarial"
Desde que foi escolhida pelos industriais para comandar a federação, a empresária optou por não usar o gênero como um triunfo. Tanto é que na coletiva de imprensa, concedida quando foi eleita, ela disse que queria ser lembrada pelo seu trabalho. “Quero ser reconhecida pela minha capacidade de entrega e não por ser mulher.”
Sem dúvidas, são o desempenho e os resultados que a nova presidente e a sua equipe vão apresentar que mostrarão o quão bem-sucedida ou não será a sua gestão. Mas não é nenhum demérito valorizar o fato inédito de ser a primeira mulher no cargo. Destacar essa condição é inspirar outras mulheres a ocuparem espaços de liderança. É provar como elas podem estar em ambientes e funções que desejarem.
É compreensível que Cristhine tenha feito a escolha por não entrar nessa discussão em virtude do conservadorismo ainda muito presente em instituições tradicionais como as federações das indústrias. Levantar a bandeira da mulher poderia trazer um certo “ranço” e “olhar torto” de alguns colegas com os quais ela convive e debate diariamente. Mas vale a reflexão que ela, por meio da posição que ocupa, passa a ser um caminho e um estímulo para reduzir preconceitos e valorizar quem por séculos esteve à margem da tomada de decisões do país.
A chegada da Cris na Findes pode ser o gatilho para que mais mulheres da indústria e de tantos outros setores se encorajem a fazer parte do debate que diz respeito ao presente e ao futuro de todos e todas nós.
PARADIGMAS
Apesar de Cris Samorini não ter entrado no mérito de ser mulher, vale registrar que, no evento de posse, o então presidente Léo de Castro destacou esse feito. O presidente da Assembleia Legislativa, o deputado Erick Musso, também valorizou e citou outro cargo de liderança feminina: o da vice-governadora Jaqueline Moraes. E o governador Renato Casagrande fez questão de mostrar como a posição é importante: “Para nós isso é muito bom, Cris. Quebra paradigmas, reduz preconceitos, mostra como a mulher tem competência para exercer qualquer papel e, muitas vezes, com muito mais competência pela sensibilidade que tem.”
CRIS PÉ QUENTE!
Durante a cerimônia de posse da nova diretoria da Findes, o governador do ES, Renato Casagrande, afirmou que a presidente eleita Cristhine Samorini chegou junto com as boas notícias. “A Cris já mostrou que é pé quente! Hoje (quarta-feira), o Tribunal de Contas da União aprovou a renovação antecipada da concessão da ferrovia Vitória a Minas. A Cris também é pé quente porque o Congresso aprovou hoje (29) a urgência do projeto do novo mercado de gás.”
MAS...
Casagrande continuou: “Você é pé quente para muitas coisas, Cris. Mas vai enfrentar momentos de dificuldades. A economia capixaba sofre desde 2014.”
CERIMÔNIA FÍSICA E VIRTUAL
O evento aconteceu tanto presencial quanto virtualmente. O governador assim como algumas lideranças empresariais e políticas estiveram no local da posse, enquanto a maioria dos participantes acompanhou pela internet.
DE LÉO PARA CRIS
A mudança da gestão de Léo de Castro para a de Cristhine Samorini aconteceu de forma muito natural. Aliás, a continuidade não é só na maneira de trabalhar. Até o jeito de se apresentar tem sintonia. Assim como Leonardo de Castro optou por ser chamado de Léo de Castro, Cristhine vai adotar o Cris Samorini.
EMPREGO GARANTIDO
Léo mal passou o bastão para a sua sucessora e o governador Casagrande já está de olho no tempo livre do empresário. Durante a cerimônia ele brincou: “Eu já te contratei Léo como assessor especial sem remuneração para você nos ajudar no debate do desenvolvimento do ES. Não esqueça disso, tá certo?”
CUMPRIU!
No início de 2018, em uma entrevista, eu perguntei a Léo de Castro se ele teria interesse na reeleição ou até mesmo se tinha pretensões políticas. A resposta foi não e, na ocasião, ele disse que eu poderia cobrá-lo ao final do mandato. Fica aqui o registro que a promessa foi cumprida!
ATÉ O FIM
Falando em cumprir, a nova presidente da Findes, Cris Samorini, afirmou que irá exercer até o fim o seu mandato na instituição. O compromisso foi firmado pela empresária após ser provocada, durante a cerimônia de posse, pelo presidente da Assembleia Legislativa, Erick Musso. Durante o discurso, o parlamentar citou que Cris é a terceira mulher no país a assumir o comando de uma federação da indústria, mas lembrou que as outras duas não chegaram a concluir o mandato. "Vou responder à provocação que eu recebi. Com certeza eu vou encerrar os três anos de gestão com bastante entrega porque eu tenho uma diretoria competente. E tenho certeza que farei orgulho representando o Espírito Santo diante de um cenário desafiador. Aqui meu compromisso firmado."