O anúncio feito pela multinacional TechnipFMC nesta semana, de que vai encerrar até dezembro a produção no Estado de tubos flexíveis usados na cadeia de petróleo e gás, caiu como um verdadeiro balde de água fria no mercado capixaba. A decisão de transferir as atividades para a planta que empresa já tem no Porto do Açu, no Rio de Janeiro, surpreendeu de empregados ao governo do Estado.
Para se ter uma ideia, mesmo após a companhia franco-americana ter tornada pública a sua intenção, nenhum tipo de comunicado oficial havia sido feito a membros do Executivo estadual. Aliás, poucas foram as informações passadas pela empresa. Não se sabe ao certo se os mais de 1.000 profissionais serão aproveitados, transferidos ou demitidos. Não há detalhes sobre quais as atividades que ela continuará a realizar no Espírito Santo, tampouco porque realmente a multinacional desistiu da fabricação dos equipamentos aqui.
Embora à coluna a Technip tenha justificado que a mudança está relacionada à queda na demanda do mercado, em função da pandemia do novo coronavírus e da crise internacional do petróleo, fontes consideram que há mais fatores por trás da decisão.
A instabilidade jurídica junto à Codesa, em relação ao contrato de uso da área onde está instalada e que venceu em janeiro deste ano, e o fato de a fábrica do Açu ser mais moderna e oferecer condições econômicas mais competitivas são alguns dos fatores que levaram a companhia a reposicionar os seus projetos. “Nenhum empresário gosta de ter insegurança e, pela lógica econômica, não tem como dizer que aqui é melhor”, disparou uma fonte.
Mas o que explicaria a saída repentina e sem interlocução com Codesa e governo do Estado, por exemplo? Nos bastidores, há duas avaliações. Uma é a própria cultura da empresa.
Fontes disseram que, desde que a companhia está em Vitória, ela nunca teve uma interação cooperativa com a comunidade capixaba. E, depois que houve a fusão em 2016 entre a francesa Technip e a americana FMC, esse relacionamento ficou ainda mais limitado. Então, ao avaliar que a planta capixaba não era mais interessante, a multinacional simplesmente decidiu ir embora.
“Diferentemente de nós latinos, eles não têm o perfil de ficar fazendo reuniões com governo, com deputados. Senti que esse processo foi tratado com certa frieza e simplesmente no campo jurídico.”
Mesmo que esse tipo de articulação não faça parte da estratégia da TechnipFMC, para algumas fontes, faltou proatividade do governo estadual, do governo federal e até da bancada.
“Acho que governo do Estado marcou bobeira nesse assunto. Se você quer que a empresa fique, tem que criar condição diferenciada. Do ponto de vista econômico, a racionalidade é mudar para Açu. Mas, considerando o peso dessa empresa, vale criar um fato que justifique o investidor querer ficar no ES. Mas fomos passivos”, analisou uma pessoa que há anos acompanha esse processo.
COR DA CUECA
Para uma liderança capixaba, o leite já foi derramado, mas é preciso tirar a lição de que o Estado deve atuar de forma mais proativa. Para ela, conhecer a fundo as características e projetos das principais empresas que atuam no Espírito Santo é essencial para se antecipar a possíveis problemas. “Você tem que saber de tudo, ir atrás das pistas. Brinco que para construirmos um bom relacionamento, temos que saber até qual a cor da cueca do cara.”
IMPACTOS NA DESESTATIZAÇÃO
O fim da fabricação dos tubos flexíveis pela TechnipFMC na unidade do Porto de Vitória traz algumas dúvidas do quanto isso pode impactar o processo de desestatização da Codesa. Fontes ouvidas pela coluna estão divididas se a saída desse negócio mais ajuda ou atrapalha no valuation (a precificação) da Companhia Docas.
SEM AMARRAS
Entre quem vê o lado cheio de copo, a justificativa é que a empresa privada que “levar” o Porto terá mais liberdade de definir suas estratégias e preços, sem estar amarrada a acordos anteriores. Além disso, há quem acredite que o novo administrador portuário não herdará a dúvida de uma companhia que vez ou outra especulava deixar o local. “O investidor que entrar já sabe com o que vai contar, e não ficará nas mãos de um cliente meio dúbio, que tem uma fábrica mais moderna em Açu e poderia querer sair do espaço a qualquer momento.”
COM LIMITAÇÕES
Por outro lado, algumas fontes consideram que pode haver uma perda de valor na desestatização da Codesa em função da área estar ociosa. Afinal, dificilmente, com a saída da Technip, alguma empresa se instalará no local em tão curto prazo. Os trâmites para um novo arrendamento não acontecem de uma hora para outra. Além disso, as características da região, que tem um calado (profundidade) de 6 a 7 metros, não atraem qualquer tipo de cliente, já que a movimentação de navios acaba sendo limitada.