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Estratégia

Pedido de recuperação judicial da Samarco não vai impactar operações

Ao lançar mão dessa ferramenta jurídica, conforme a coluna apurou, mineradora quer preservar o caixa e garantir a continuidade das atividades em Anchieta

Publicado em 10 de Abril de 2021 às 02:00

Públicado em 

10 abr 2021 às 02:00
Beatriz Seixas

Colunista

Beatriz Seixas

bseixas@redegazeta.com.br

Planta de pelotização da Samarco, em Ubu, em Anchieta
Planta de pelotização da Samarco, em Ubu, em Anchieta Crédito: Jefferson Rocio
O anúncio do pedido de recuperação judicial da Samarco nesta sexta-feira (9) pegou muitos de surpresa e chegou a causar um receio sobre a solidez da companhia e a continuidade das suas operações em Anchieta, no Sul do Espírito Santo. Mas a estratégia jurídica adotada pela empresa é vista, por fontes ouvidas pela coluna, como uma saída justamente em direção contrária.
Ao levar as discussões e negociações para a Justiça, a mineradora tem o objetivo de preservar o seu caixa, honrar compromissos e manter as suas atividades em curso. 
A decisão acontece em um momento em que credores no Brasil e nos Estados Unidos pedem a execução de promissórias contra a Samarco, que somadas estão na casa dos bilhões de reais. Ou seja, caso a companhia tenha que efetuar esse pagamento praticamente de uma vez, ela poderia vir a comprometer a sua sustentabilidade financeira.
Portanto, levar a negociação para a esfera judicial contribui para que a mineradora siga com o seu planejamento de retomada gradual das operações, assegure os empregos e a geração de renda, mantenha em dia seus compromissos com funcionários e fornecedores e garanta divisas de exportação. 
"Para a Samarco não ter que ficar com a conta sendo bloqueada e respondendo um a um, ela optou por assinar a recuperação judicial, e aí todo mundo recebe no prazo que a Justiça definir. Isso vai acontecer acompanhado de um plano, possibilitando que a empresa se organize. Esse pedido foi muito mais uma jogada contábil. É uma resposta a esse movimento dos fundos que resolveram de uma hora para outra realizar os ganhos", analisou um especialista na área.
Outra fonte contou à coluna que conversou com um representante do alto escalão da mineradora e que ele assegurou que não há risco de fechamento da planta capixaba, nem previsão de demissões. Assim como reforçou que a recuperação judicial não deve ser encarada como indicativo de uma possível falência. 
"É uma estratégia jurídica que faz todo o sentido para melhorar as negociações com credores externos, os chamados abutres. É um escudo, uma blindagem, que coloca a Samarco numa posição melhor de negociar. Nem de longe é quebra"
Fonte da coluna - Preferiu não se identificar
Para um analista do mercado, além de trazer mais proteção para o processo, a decisão pelo pedido de recuperação judicial pode fazer com que outros movimentos aconteçam internamente entre as companhias controladoras da Samarco, a Vale e a BHP Billiton, como a venda da participação da BHP para a Vale. 
Essa fonte considera que há um empenho por parte da Vale em viabilizar a ferrovia EF-118, ligando Cariacica a Anchieta, e que esse investimento é um sinal de que ela está com um olhar de futuro.
"Assim, a Vale tem mais opções de integrar as plantas de Tubarão e de Ubu. Ela cria mais possibilidades na movimentação dos seus produtos. E aí, nesse caso, faria mais sentido a BHP não fazer parte do negócio", opinou. 
Linhares - Foz do Rio Doce, poluída pela lama que veio da barragem da mineradora da Samarco, em Mariana-MG  - Ministra do Meio Ambiente, Isabella Teixeira, visita a Foz Do Rio Doce, em Regência
Linhares: Foz do Rio Doce poluída pela lama que veio da barragem da Samarco, Crédito: Fernando Madeira

RETOMADA DA OPERAÇÃO ACONTECEU EM DEZEMBRO

O pedido de recuperação judicial da Samarco acontece menos de quatro meses depois de a mineradora retomar parcialmente as suas operações em Anchieta. Ela ficou com as atividades suspensas por cinco anos em decorrência do rompimento da barragem de Fundão, em Mariana (MG),  em novembro de 2015. O acontecimento foi uma das maiores tragédias socioambientais do país. 
Além dos graves reflexos para o meio ambiente e na vida de comunidades que viviam ou ganhavam o seu sustento a partir da Bacia do Rio Doce, o rompimento da barragem e a consequente paralisação da unidade de Ubu praticamente fizeram parar a economia do Sul capixaba, especialmente a da cidade de Anchieta, e tiveram elevado impacto para o Estado, que viu a sua produção industrial ser muito afetada. 
À época, o peso da Samarco no PIB do Espírito Santo era superior a 5%. Agora, a partir da retomada gradual das atividades, com uma capacidade de 26% de produção de pelotas, a participação na economia do Estado é da ordem de 1,6%. Por mais que o valor tenha sofrido uma queda significativa, ele continua sendo importante para a geração de riqueza e oportunidades no Estado. 
Por isso, a notícia e os possíveis desdobramentos do pedido de recuperação judicial geraram grande inquietação e preocupação. Trabalhadores, fornecedores, autoridades e até mesmo especialistas foram surpreendidos com a decisão da Samarco e ficaram receosos, em um primeiro momento, com o futuro da empresa.
Mas, pelo menos por enquanto, não há motivos para alarde.  A companhia reforçou em seu comunicado que mantém suas operações, assim como especialistas ouvidos pela coluna pontuaram que a mineradora tomou a decisão pautada em uma estratégia jurídica-econômica. Os planos e as operações seguem firmes. 

Beatriz Seixas

Jornalista de A Gazeta, há mais de 10 anos acompanha a cobertura de Economia. É colunista desde 2018 e traz neste espaço informações e análises sobre a cena econômica

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